domingo, 28 de setembro de 2025

 

NA LUSITÂNIA

 

            Fui andando pelos galhos da vida e notei, nos ares que me traziam a voz do vulgo, que a vidinha corria bem. Cada um no seu galho, cada um a dizer mal do bem que possuía, cada um a preparar o edital do protesto sobre o porquê do absurdo. (Os cartazes eram multicoloridos). Vida sossegada, normal, fui pensando sobre o que via e que já nem ouço.

            Acerquei-me de um domiciliado, numa mesa ao lado, que em empolgamento transmitia a um outro, as doces venturas de uma viagem que fez por paragens do “lá é que é”, onde o dinheiro de cá é suficiente para viver aquele momento, , e é onde tudo nos faz vibrar… O dinheiro gasto , não dá para viver .

Estavam sentados num local onde normalmente se fala uma oitava acima, graças a um liquido que provou lubrificar as vãs palavras, sitio onde se mete no bolso o “memorando”, antes do liquido lubrificante, e que é quase sempre visitado por seres praticamente “mudos” à entrada…

Reparei que o outro interlocutor lhe disse que tinha visto a passagem dele e da família pelo , no “outdoor da família” e que até tinha feito um: “está porreiro, pá” com o “memorando” próprio, o tal instrumento que sabemos, trava a língua.

Ao sair da mesa para a rua, assisti a um desaguisado entre um piloto de uma arma de assalto, (vulgo automóvel), com um congénere. Entendia a razão dos dois, nada sobre o que tinha acabado de acontecer, mesmo sabendo tudo, e já quase em “vias de facto”. Entretanto, resolvendo o caso com civilidade, anularem-se, e deram a uma entidade que por eles cuida (seguro), a resolução da incapacidade dos maquinistas. Esta saída, hoje, dos seus galhos, de forma irresponsável… deviam não ter saído do galho, mas essa atitude, para castigo de todos nós, fez com que saiam penalizados futuramente. Ora, que interessa isso agora e sempre? A sua vida é feita de grandes nadas, sempre a acontecerem. Passam-lhes ao lado grandes “tudos”, os que não entendem nunca, mas dizem aos neurónios activos que a vida tem que ser vivida, porque a dita, dura só três dias e um já passou…

Deambulei para outra realidade, dentro da mesma, para ver se a vida continuava em modo normal, não é que estava? Fora, é claro, os desajustes maioritários. Descobri, junto a uma esquina deste perscrutar, que um jovem conversava com outro com um “memorando” na mão. De vez em quando encostavam-se um ao outro e olhavam o memorando de um, falavam… engraçado, falavam mesmo. Tenho esta observação, porque constatei que os memorandos calam a boca aos seres humanos. Frases curtas, mas aqui, falavam. Depois trocavam de posição, era o outro que mostrava o seu memorando e falavam, rindo. Riam mesmo. Ora… não falavam em modo de diálogo para conseguir sorrir ou rir, não, mostravam o memorando um ao outro. Isso é que era mostrar. Falar, ao que parece, custa imenso, com o memorando na mão. Acabei por dar conta, afinal, que as palavras que se dirigiam, eram exíguas, para mim, não sendo um verdadeiro diálogo, só podia ser em código, ah, e dá para rir. Estes códigos foram levando até à I.A. Despediram-se, foi cada um para seu lado, onde cada um, seguia aos… quase, tropeções porque não olhavam para o chão…. O memorando danifica os pisos das ruas ao que me parece…

Mais lá para a frente, reparei num cidadão que saía de um “mercadinho” com um saco de compras numa mão e um talão na outra… parava de vez em quando… resmungava… ia com o sobrolho franzido. Seria porque foi penalizado por ter saído para um mercado fora do seu “galho”? Ou é mesmo assim? Já duvido de tudo. Quer queiramos ou não, a verdade é que temos sempre que sair do nosso galho… Se calhar anda furioso porque não ganha dinheiro suficiente para conseguir ir ao… “”? Ao tal . Está muito carrancudo. Parece que o cidadão está a sair da normalidade da vida e por isso, por raiva de não ter, ou procurar ter (dá trabalho), está a fazer parte do grupo que tudo contesta e que nada vê a não ser… uma “contestação pequenina”? Não lhe vi nenhum cartaz na mão… só um talão. Será que era, afinal, um minúsculo cartaz e não me apercebi? Ah, esta minha miopia…

Vi mais adiante uns cidadãos sentados, estranho…, mas, por onde é que eu entrei? Estão fardados, levantavam-se, saúdam-se militarmente, olham uns écrans terríveis, com labaredas a decorrerem nas telas, de seguida falam nuns memorandos pessoais, sentam-se, levantam-se, saúdam-se militarmente, falam para uns microfones em frente a umas máquinas… sentam-se, levantam-se, saúdam-se militarmente, falam nos memorandos pessoais… repetem-se, repetem-se. Saí dali rapidamente, este não é um galho que conheça, tudo é muito mecanizado para que eu consiga perceber o que se está a passar. Serão chefes? Pois, os chefes não são mesmo, gente do meu galho!

Já tive outro galho. De lá via um sonho, via… pressentia-o, porquê? Porque todos em redor eram todos e cada um, ninguém se atropelava. Todos andavam de galho em galho, na vida… Sempre pensei e quis que fosse assim. Era esse o sítio, tinha o sabor da manga acabado de colher, tinha o aroma do café acabado de torrar, tinha o sabor de um pirão molhado em óleo de dem-dem… tinha um mamoeiro no pátio a sorrir-me em dádiva. Tinha o sorriso da árida e pródiga terra que cheirava diferente quando chovia. Tinha a certeza… certeza? Mas tinha por garantia dos idos 500, que o pouco que viesse era tudo mais que aqui neste galho, muito mais…

Logo apareceu uma outra parte do meu sonho que sempre me pareceu irrealizável, mas que se tornou realidade. Com essa parte do sonho, acordei 25 vezes, com muita satisfação, e a respirar uma liberdade diferente, com essa parte do sonho a concretizar-se, afinal, completando o sonho original, o seu todo. Pensei que a natureza tinha compensado todo o meu mundo neste meu novo galho, e compensou no meu espirito e que agora… deambula de local para local… sem conseguir sair do galho, só em pequenas escapadelas, como agora, só para ver se estou, ou não, a perder o sonho.

Outro galho, onde não faço a mínima ideia como consegui ouvir uma discussão entre vários, parecem-me cidadãos… Ouve-se: “Eu fiz, quando estive lá… (este lá não é o tal “lá”, pareceu-me..) Os outros, quase ao mesmo tempo diziam a sorrir: “Nunca fez nada disso, para que é que afirma que fez?” Um quer falar, outro interrompe-o, e mais um e mais outro… mas não me parece ter entrado numa feira? Estão todos de fato, ao lado uns dos outros a falarem para um dispositivo que vai “andando”, ora apontando para a cara de um, ora para a de outro. Não reconheço este lugar onde não se dialoga, só existe ruído e incompreensão… Pareceu-me um lugar onde todos querem o que não sabem querer…

Ah, e então? Agora, neste outro sitio da vida, conformadamente normal, vi uma quantidade de normais a discutirem sobre a vida, tudo em alta voz, por isso mesmo, cada um mais normal que o outro. Denunciavam ser tudo obliquo, tudo era mau. Um dizia que pagava ao banco 800 euros para ir abatendo no montante da hipoteca da casa. Falava que ia alugar a dispensa lá de casa, onde meteria uma cama, nada mais por aí cabia. Informava que ia alugar a quem necessitasse de cama, talvez estudantes… por 800 euros… Dentro do que é a calma normal, a minha, não gostei do que ouvi! Pela primeira vez não gostei, mesmo nas barbas do meu galho! Isto não se diz, não se pensa, nem se executa! Intrometi-me e dei a minha opinião sobre o que de bom tínhamos no “”, que tudo à volta da nossa vida, merecia brados de aleluia. Ninguém em parte nenhuma tem o bem e o bom que nós possuímos.

Disse que não tínhamos necessidade de viajar para “” porque, quase todos os presentes, nem conheciam o “” como primeiro o deveriam conhecer antes de ir ao “”. Disse em voz alta para que todos ouvissem, que o “cá” era fabuloso, com mostras de vida única e até que o céu era mais azul, , que o sal das nossas águas é fabuloso, que os nossos manjares são únicos no “ e célebres no ”, que o verde da planície, das campinas, dos prados é verde, verde, verde, entusiasmei-me e disse que e que e que… não me deixaram acabar, viraram-se todos (penso que só alguns, outros estavam cabisbaixos) contra mim aos gritos, e em uníssono, disseram:

- “Cala-te “ó não sabes nada”! Que pensas saber, tu, das nossas vidas, politicas, negócios, desleixos e quejandos? Cala-te, porque ainda te queimamos esse teu verde e metemos tudo a negro como nas fotografias antigas!... Até te afogamos em água desperdiçada!”

Tive receio, saí muito depressa da companhia dos demais, afinal, e subi ao meu galho… ameaçaram? Ameaçam? Ai não que não foi, e é.  E não é que me estão a queimar o verde?… e todo o meu resto, afinal, arde-me mesmo tudo… ah, engraçado, sem a graça de outrora do meu velho galho, começo agora, e outra vez, a ver ao longe. Também sei que é sempre a mesma repetição, a eterna chegada dos cartazes… e os discursos zangados, como se todos devessem tudo uns aos outros e agora, no que consta, só a um. Estas tonitruantes atoardas são posteriormente vistas naquele galho onde se transmitem resumos do que se passou, nos tais écrans… Constato que esta vida, afinal, está, e assim nós o continuemos a permitir, progressivamente normal, de forma a que as contestações infundadas, passam a ser normalmente verdades.

Daqui, do meu galho, digo da minha observação de outras paragens, que com todas as desconsiderações, agora normais, feitas à democracia firmada nas instituições, por parte dos habitantes dos “galhos extremos da árvore”, e que referem comummente, “nós contra eles”, um desses galhos fala em “corrupção e nada se faz”, no outro extremado galho, fala-se na “exploração do povo pelo capital”. Temos que saber ver estas manobras por parte do pessoal esgalhado destes galhos… digo eu para fazer… pensar? Se calhar o melhor é ser anormal dentro desta normalidade? Mas afirmo por constatação: “Nesta Lusitânia, está a ser muito difícil ser-se macaco… nestes galhos já tão secos de esperança e atacados destes parasitas, ah, disseram-me que água e sabão pulverizado sobre o sistema parasitário… acaba com ele. Será?”.

VM

sábado, 27 de setembro de 2025

 

OS POLITICOS FANQUEIROS

 

 

            A fancaria politica é de todas as manifestações politicas, a que consegue ter entre nós, um expansionismo que brada. Tratando-se de uma forma de se acomodarem, por enviesamento intelectual, alguns dos nossos políticos, fanqueiros, verborreiam um argumentário que pretensamente  insinua uma penetração nos espíritos menos avisados, sempre em oposição a outros argumentistas, dando ares de novidade ao seu “produto” que por regra é caracterizado, tresandando, a pataratice, mas que ao trazer umas vestes retumbantes, dá-lhe um ar de novidade necessária, porque bem “vendida”, e que por isso, assenta bem nos ombros dos que a jeito se colocam, porque gostam de vestir semelhante “roupagem”, ou não querem consciente ou inconsciente, ter outra, emparelhando com os camelídeos que só vivem de um tipo de alimento. Sem querer ofender os ditos.

            Esta fancaria politica, um produto que não tendo acabamento, nem nenhum trabalho cuidado, durante e na sua finalização, é uma forma grosseira de se apresentar ao público alvo, com pretensões de “desposório” aos incautos. É pura fancaria. Entretanto, vai o politico fanqueiro, criando distorções nas percepções sociais e politicas, porque lhe vão dando notoriedade, ficando com isso, o “cliente agarrado” ao seu esclarecer, dizendo que existem ilusões que são criações do sistema e implantadas nos espíritos de todos os demais, e que agora vão ter de desaparecer porque o sistema conforme está, não pode existir mais. É aqui que a “teoria” Alves dos Reis está certa: “O embarcamento dos tolos é o finalizar de uma boa campanha sobre o (des)necessário.”

Ninguém se nega a um “pavilhão de fonógrafo”, que constantemente debita frases como: “Contra a corrupção; Acabar com o sistema (o democrático?); Acabar com subsídio-dependentes; Contra a imigração sem controlo; Contra o socialismo e social democracia (sinónimos em politica. Politicas que não vivem, uma sem a outra, no que concerne a fazer crescer o país economicamente). Esta moralidade, a do político fanqueiro, leva a que muitos clientes respondam por impulso, engajando-se no formulário, sobretudo se este enverga um fato azul, camisa branca e gravata italiana em tons azuis. Este talento do politico fanqueiro, a que não falta um só parafuso na sua máquina de debitar promessas, e onde existem sorrisos que são atirados para a direita e para a esquerda, tem de ser desmistificado. Os espíritos sérios, onde reina a democracia, têm o dever de parar estas verborreias porque, o debilitado estado intelectual onde foram parar os demais cidadãos, por défices estruturais nas academias que deixaram de proporcionar aos estudantes, o discernimento sobre os embustes, retirando cadeiras sócio políticas ou até nunca as permitirem nos vários currículos de leccionação, em muitos casos, é uma verdade que se vislumbra na crescente clientela da horda de políticos fanqueiros. As frases talvez involuntariamente “cínicas” sobre: “O povo sabe…”, não colhe verdade.

Como é feito o escrutínio das políticas de fancaria? Dirão então os grandes Intelectuais do momento:

            - “O povo sabe bem o que quer…”

            - “O povo sabe bem o que quer e o que escolhe…”

            - “O povo decide nas urnas o que quer para o país, sem atender a promessas…”

            Será assim? Não, não é assim. Sabemos que não. Quem não pensar pela própria mente, vai ser vítima das “modas dos políticos fanqueiros”. E todos têm capacidade para pensar por si só? Foi-lhes dada essa capacidade? Culpa do sistema de educação/formação! Devemos ter presente, como povo consciente, que ninguém na politica vai esculpir um mundo bonito para todos, como queríamos. O que se faz, ou deve fazer, é encaminhar o país num determinado sentido, escrutinar as politicas aplicadas para serem constantemente reequacionadas e assim levar os desígnios formulados, a bom porto.  Temos que ter sempre presente: estas politicas não vão formatar o país de acordo com o sonho de alguns, não. O país formata-se constantemente de acordo com o interesse maioritário do povo. Aqui, as competências de cada um dos candidatos a político, analisadas por todos nós, são obrigatoriamente o ponto de partida, para que as politicas comuns sejam conseguidas. Sem a nossa análise, sobre cada “currículo” dos políticos que se apresentam ao nosso sufrágio, o campo ideal para os políticos fanqueiros, está-lhes pronto para o percorrerem singrando.

 

VM


Também publicado no jornal online "DUAS LINHAS"


quarta-feira, 24 de setembro de 2025

 

PATRÃO É CAMPEÃO, MATA TUDO,

 

 

          Fizeram-me um pedido, estranhei porque o “sitio” onde escondi a minha caixa de correio, afinal, está “visível”. Como nos descobrem os “locais” onde conversamos, com quem queremos? Descobriram mesmo? Bom, afinal não é por aí que vem mal ao mundo. Perguntaram-me, se nesse meu “”, (Angola) sobre as histórias que ficaram impressas nesse meu livro, produzido a “expensas próprias”, tinha mais histórias. Dei aos “perguntadores” umas notas. Por via disso, agora, para todos os leitores, vai uma historinha, que nos fez rir, na altura. Começou, e resumidamente, vai assim:

…………………………………………………………………………..

Estou a sair de casa no Cubal para ir até à fazenda do Franklim, comemorar os anos do pai. A minha família entra no carro. Abro o porta luvas para ver se tinha os documentos do carro e vejo um papel dobrado, este não estava na minha alçada, fazia tempo... Peguei-lhe e a mulher diz que o tirou de um livro que estava numa estante. Pergunta-me quando é que eu tinha escrito o poema. Desdobrei o papel, li e sorri. Respondi que tinha sido em Luanda. A inspiração surgiu de uma “quitandeira” que solicitava a uns rapazes a compra de uns doces que ela confeccionava. Escrevi-o assim:

“ Ai ué minino, Mi compra caramelo.

Ai di mim, precisa dinhéro

Pa dá a meu fiu piquinino

Comida, e comprá meu chinelo Qui já estragou todo intéro...

Ai ué... mi compra meu caramelo... Já foi na Mutamba,

E no São Paulo já foi. Vai tê quir no quimbanda,

Quê sorte minha só doi.

Ai ué minino,

Mi compra meu caramelo…”

 

A mulher diz-me:

- Sensibilidade para “agarrar” o lamento da quitandeira. Noto que continuas assim, “deo gracias”.

Quando cheguei à fazenda, já o Matos e o Borges se encontravam com as famílias. Notei, notámos, que Franklin andava “derrancadinho” para sair, queria ver se caçava uma onça. É que lhe tinham garantido a pés juntos que andava uma a rondar a fazenda todas as noites. O vício dele era tal…

Bom, Fanklin às vezes contava umas histórias que mais mos pareciam anedotas. Porquê? Sabe-se lá. Foi essa a informação que teve. Onça na “costa”.

Dizia então Franklin, que por vezes, aqui sabíamos ser verdade, ia à noite caçar uma ou outra cabra, aproveitando para verificar as extremas da fazenda, ver o gado que os pastores deixavam acomodado no mato, etc., e que até  tinha visto pistas de onça…

Tanto andou que conseguiu que o desculpassem, tamanho era o vicio da caça, a ausência dele, seria de mais ou menos, uma hora no máximo, dizia. Saiu com o inseparável, capataz e guia de caça, o Tavongo.

Estava uma bela noite e por acaso não o vimos sair com a arma na “mão”, já a tinha no estrado do jeep. Seguiu.  Depois de algumas voltas dadas, quem lhe aparece vindo “do nada”? O fiscal bem conhecido de todos nós. O homem, tal como todos, vivia no Cubal. Aparece-lhe silenciosamente, o que era inacreditável para quem conhece o Franklin. Este fiscal era um sujeito que farejava o pessoal, tinha um “andar” de onça, como o Borges dizia.

Seria perto da meia noite e meia. Estava Franklin numa extrema da fazenda com o Tavongo a seu lado. Franklin tinha combinado com o seu “braço direito”, antes que um qualquer fiscal chegasse junto deles, e que perguntasse se o patrão estava a caçar, ou se matava muita caça, devia dizer que não. “Olha Tavongo, defende-me! Diz sempre que não!” O fiel “escudeiro” sabia como se comportar.

Chegou o fiscal junto deles, cumprimentou e começou um interrogatório disfarçado. Ia sabendo o que lhe interessava e a determinada altura, dispara:

- “Então e o farolim no jipe, é só para ver melhor o mato, não é, senhor professor?” Franklin ia respondendo:

- “O senhor sabe bem que não é, mas também sabe que tendo gado a pastar por todo o lado, necessito por vezes saber onde os animais pernoitam. Ver se tudo está bem. É claro que não vou para perto deles ver. Ligo o farolim e vejo bem o que se passa”.

E o fiscal continuava:

- “Pois claro que é assim, nem uma arma o senhor trás, pois não?”

- “Tenho sim senhor! Também sabe que tenho armas e legalizadas. Preciso me defender, se alguma vez uma onça me ataque, sabe que por aqui há muitas. Também sabe que tenho tudo legalizado.” - Respondia Franklin.

- “Muito bem. - Brincava o fiscal - Toda a gente sabe, nas redondezas, até os seus empregados o dizem, que o senhor não percebe nada de caça e é um mau atirador, que não acerta sequer num elefante, nem a dois metros.”

Aqui Tavongo, furioso, entra num repente na conversa e exclama:

- “ Não sinhôr, não é vérdáde! O pátrão és cámpião, máta tuto!”

Franklin ficou sem pinta de sangue.

O fiscal desata à gargalhada. Achou graça à defesa que o capataz estava a fazer do patrão, e, carros leitores, não o multou. Teria por base o “depoimento” da “testemunha”, que afirmou peremptoriamente que o patrão caçava mesmo. Franklin, primeiro com riso amarelo, mas depois num riso franco. leva o fiscal para a fazenda, beber uns uísques. Regressamos todos ao Cubal incluindo o fiscal.

 

Acabou assim a historinha… A simplicidade das “coisas” cria afectos, cria… sorrisos, cria entre nós… é, cumplicidade sorridentes.

 

 

VM

domingo, 21 de setembro de 2025

 

MÃE ANTÓNIA

 

Dei comigo nas compras, fruta. É um quebra-cabeças esta função. Porquê? O que nos aparece? Fruta verde, por dentro “queimada”, na quase totalidade dos casos, a apodrecer por dentro e lindas por fora… é essa a desgraça, mal embalada, queimada do frio dos frigoríficos. Verdade, verdadinha, se não fossem os benditos “arrefecedores” para estagnar o processo de maturação/decomposição natural da dita fruta, ninguém comia fruta… todo o ano. Mesmo que um pêssego saiba a pepino ou uma laranja tenho um gosto a mofo insuportável, praticamente todo o ano existe fruta e paga-se muito bem por ela, mesmo que a deitemos fora, com um ar desolado e a dizer entre dentes: “Nunca mais trago pêssegos… maçãs, nectarinas, tangerinas… laranjas, fora de época. Ah., ah., ah.

É assim. Temos que optar, fora da nossa época da fruta (come-se na mesma tudo verde) para fruta tropical a preços de ourivesaria. Que fazer? Não comer? Nem isso podemos?  Suportamos os preços?

Olhei umas anonas… não é normal aparecerem nos nossos mercados. Apanhei uma, como sempre faço, cheirei e… sorri. E do que é que me lembrei? Uma história com quase… digamos que terá 58 anos. Passou-se em Angola, no tempo em por lá circulei. Não resisto a contar, ah, publiquei-a num livro, (As (des)Aventuras de um professor em África) um livro de memórias sobre caçadas falhadas e outras histórias, tem Kimberlitos e tudo.

Nos diálogos em que aparece o linguarejar dos naturais, é o que é. Mesmo assim. Não se trata, de forma nenhuma, de eventuais arremedos, seria triste da minha parte se o fosse. Pura e simples, é a forma linguística de quem não tinha obrigação de falar correctamente o português e o fazia para se entender e sobreviver.

E simplesmente, foi assim:

 

Andei um bom bocado e acabei por “dar comigo” no Musseque São Paulo. Estou a ver umas quitandeiras por ali com fruta, mas, será possível? Fruta de Moçâmedes, ou seja, uvas? Deixa-me ver, não pode ser. São da África do Sul com certeza.

Ouço uma conversa, uma moça ainda nova, a falar para uma quitandeira. Finda a conversa e já junto à quinda, pergunto:

- Como a senhora se chama?

- Ouviu a minha filha? Pode ser assim.

- Muito bem. Então mãe Antónia, diga-me quanto quer por estas uvas? Parecem estar maduras.

- São da produção lá do Namibe. Doces, doces, doces com'ó mel!

- Pago-lhe quanto?

- Dois angorar e meio, já lás vendi más cara hóje.

- Está bem, está bem, pese dois quilitos.

A frase: “Ouviu a minha filha?” levou-me instantaneamente para um outro dia em que fiz uma compra aqui, no São Paulo. Já tinham passado algumas semanitas sobre este sábado, foi junto a uma quitandeira com a sua quinda cheia de... meio, meio, anonas e quiabos. Histórias sobre histórias…

Esse dia estava quente e às dez horas da manhã apetecia beber uma cerveja. Para mim uma Nocal preta era a que mais me satisfazia. Manias. Mas o calor chegava, se chegava! As quitandeiras alinhavam-se no passeio, como agora, e nas bancas improvisadas, mais atrás. Isto era perto do cinema São Paulo. Ir comprar  ao Kinaxixe não dava gozo. Aqui tinha mais banga. As vozes eram tantas e ao mesmo tempo, faziam aquele “ruído” típico de um mercado, não de grandes proporções, mas suficiente para se conseguir ver e comprar o que se pretendesse e assim levar coisas de uma forma rápida.

Os risos das mulheres, a correria das crianças por entre as quindas, o consequente ralhar das mães e das que o não eram, não fossem atirar com tudo para o chão espalhando o que custou muito a tratar e a trazer. As mais velhas mandavam na cachopada e eram sempre respeitadas.

Nesse sábado apeteciam-me umas anonas e olhando a “cara” delas, Santo Deus, deviam estar uma delícia. A certa distância, lembro, ouvi uma mulher dizer para a quitandeira o que tinha na quinda. Era o que me interessava, continuou a falar,  agora dizendo:

- Mãe Antónia, vou na Mutamba falar com Jácinto. Só sai à “meia” e preciso de dinhéro para os medicamento.

- Vai, vai, quéu ólho.

Acerquei-me da quinda, peguei numa anona, examinei-a perante o olhar desconfiado da senhora, mulher para os seus 70 anos, ainda vigorosa. Ao ver o meu sorriso adiantou:

- Góstôu? São bóas mésmo!

- Já vi sim mãe Antónia, vou querer.

               A quitandeira olhou-me com ar ainda mais desconfiado e ao mesmo tempo falou com a voz calma, assim mesmo, cautelosa, a tentar ler na minha face a reacção às palavras que começou a proferir:

- Como que sábes o méu nóme? Não me conhéce, eu não le conhéço. Tem vindo áqui néste lugá?

- Não, não tenho, mas já conheço a senhora e o seu nome não me esquece mais.

             Gostava de saber porque razão fui dizer que conhecia a senhora se não era quem eu pensava ser, descobri acto contínuo às suas palavras e a fisionomia assim mais de perto, não ser uma senhora que me passava roupa, fazia pouco tempo. Afinal para confirmação, tinha ouvido o nome dela e efectivamente não era o da que eu pensava ser. Paciência. Bom, “daquelas coisas” que associadas ao parecer ser quem pensava e o acto de ouvir-lhe a voz, mais o ter fixado a sua face, vai só um instante e… argolada minha. Mas já estava, já estava!

- Estóu gostando do “xindere”. Quanto que vais quérér?

- Dois quilos, faz favor.

- Estám bém.

              Pesou numa balança velha que nem o kaprandanda[1]. Entregou-me o saco com os dois quilos. Perguntei quanto era. Disse-me nestes termos:

- Não págas nada. Quem sabe o méu nome diz qué náo vai ésquécê, vai ter meu agrádo.

Fiquei completamente sem saber o que fazer, o que dizer, a meter a mão no bolso para tirar a carteira, ficar com ela na mão, a apertar o saco, meter a carteira no bolso, voltar a meter a mão no bolso, voltar a tirá-la e a apertar o saco, até que consegui falar:

- Mãe Antónia, por favor não me faça isso. Quero pagar.

Os remorsos começaram a perturbar-me e continuei:

- Por favor eu pago, a senhora precisa desse dinheiro.

- Não págas mésmo. As anónas são minha! Éu é quê mánda!

- Bom, então se não pago, deixo...

                Fiz o gesto de quem ia deixar o saco e... Saiu de trás da quinda e veio para ao pé de mim:               

 -  Não fáis isso comigo! Eu quer dar e pronto! Éu é quem sabe! Está me éntendéndo?               

- Certo.

- Então vai aceitar o que lhe vou dar.

 Aqui falei em voz baixa. Remexi na minha carteira, retirei um envelope pequeno que me tinham dado com um postalinho e meti lá dentro, sem que ela se apercebesse, uma nota de 50 angolares ou seja, escudos. Era o que tinha. Nem mais nem menos. Também não percebi porque o fiz. Dei-lhe o envelope com a nota e fui-me afastando lentamente, olhando de soslaio, não fosse a quitandeira deitar o envelope fora. Não. Abriu o envelope e disse em voz alta, já eu ia a cerca de trinta metros:               

-  Brigada “xindere”, nâ carecia, brigada… meu firia já pode págá no frámácia.

               Reparei que as outras quitandeiras olhavam na minha direcção. Todo eu sorria por dentro e a seguir por fora. Abençoadas anonas que me fizeram feliz nesse dia.

Existem dias em que mesmo ficando sem dinheiro conseguimos toda a “riqueza” do mundo, os afectos.

Pensei depois, àquela hora do dia para onde eu levava a fruta?  Iria andar com ela toda a manhã? Bom, nada que saber, vamos embora para o bendito quartel.

 

Pois o que acham os amigos leitores desta memória com tanta ternura? Pois é muito bom ter passado estes momentos. Ah, comprei agora as anonas, mesmo que estejam verdes, guarda-as para ver se amadurecem… se não ficarem, deito-as fora como faço, com a fruta, quase sempre. Isto, “cá”.

 

 

VM

(publicado também no DUAS LINHAS)



[1] Indicativo de um “ser” para lá de velho

quinta-feira, 18 de setembro de 2025

 

 

QUANDO SE ESCOLHE O NÉCTAR


 

            Encontro-me a ver os escaparates dos vinhos num centro comercial. Estou acompanhado do meu amigo Cid Adão, “exímio” na escolha do precioso néctar. Olha os rótulos, lê as castas… as graduações, franze o sobrolho… agora, noutras garrafas, sorri imperceptivelmente, olha o preço e a algumas garrafas, que elege, mete-as no cesto que a superfície comercial disponibiliza e segue para analisar outras. Por vezes resmunga em voz baixa. Sigo-o a curta distância.

            - Ó prof, não compra nada? Estão aqui umas garrafinhas muito interessantes, algumas estão caras para o que contêm… Por exemplo, esta: “Touriga nacional, touriga franca, e alfrocheiro. Alfrocheiro é uma casta que dá uma cor forte ao vinho, esta casta dá o “ar” de carrascão, mas 4 Euros e 80 cêntimos, é elevado para o vinho… pelo menos vindo do produtor que está aqui indicado.

            - Só bebendo, não? –Digo eu.

            - Não, nem é preciso beber.

            - Ó Cid Adão, sei que o meu amigo percebe “da coisa”, mas, agora fez-me lembrar uma passagem minha por um certame… Um dia, estava numa feira em Mangualde e ao apreciar uma garrafa, a olhar para o preço, oiço uma voz, atrás de mim: “Acha que é caro o vinho?” Virei-me, era o antigo ministro e deputado, Jorge Coelho, já falecido, a fazer-me a pergunta. Continuou: “Preço do vinho calculado depois do esmagamento da uva, demora temporal em estagio, nem que seja um pouco, digamos que um mínimo, um ano. A demora, esse tempo, convertido em dinheiro despendido pela adega, neste caso. Podia ser um produtor particular, seria a mesma demora e a verba empatada sem lucro, é idêntico. O preço da garrafa vazia. O preço da rolha, nesta altura é cara, isto porque um bom vinho merece sempre uma boa rolha, não são baratas, digo-lhe. Um rótulo, cujo preço, não é de graça, tem o envolvimento de designers. Quero dizer, no fim disto tudo que, sem contar com as despesas administrativas e de venda através de alguns funcionários…

            Respondi sem o deixar acabar:

            - Meu caro doutor, por esse lado é a mais pura verdade, é exactamente assim que se passa nos “trajectos” da enofilia, seja, no terreno. Pelo meu lado, agora, o do cidadão que vem ver a feira, sem saber, ou pensar nestas coisas…

            Também não me deixou acabar:

            - Pois é assim, está caro para a nossa bolsa. É verdade sim, mas olhe, quem produz e mantém postos de trabalho, tem que ser valorizado… não estão caros, os vinhos, paciência, vamos só ao que podemos e isso já é muito bom. Desejo-lhe um dia feliz.

            Despedi-me dele e coloquei a garrafa no local original. Foi assim amigo Cid Adão.

            Cid Adão, como amigo que é, responde:

            - Prof., aceito o que refere, tem razão nessa alusão, mas oiça, já agora e dado que é um vate, podia escrever alguma coisa em favor deste néctar que dá de comer a tanta gente. Queria ver o que se lhe oferece, nesse sentido.

            - Pois vou pensar nisso, irei escrever alguma coisa já que me pede, até vou dedicar o texto em forma de poema, ao ilustre Cid Adão.

            Resolvi escrever um poema simples para “moer” a cabeça do meu amigo Cid Adão. É assim:

 

O NÉCTAR

 

“Desde os pródromos mais prístinos

Que os nossos ressessos ancestros,

Estereotiparam, no estendível

Do ancestral regalório,

Uma enofilia, que se tornou beneficente

E simultânea, a efeitos peristálticos

E ligeiramente, quando menor, analgésicos,

Mas sempre, frisemos, edificantes…

Ora, os bagoados resultados da flor,

Do arbusto sarmentoso, tão estimado,

Que na frutescência deram o seu melhor,

Vão à pisada. O que daí sai é um hino que…

Posterior ao estado fermentáceo é dionisicamente

Honrado nos púlpitos do nosso consciente,

e o era, nas ambarvais de antanho.

Era, o requintado corpo que toma a forma

Do vaso que o contém, dado a fiomélicas pessoas para cura!

Não menosprezemos, nunca, o que é sublime!”

 

            Cid Adão ainda não me disse nada ainda, mas quando ler o que escrevi vai-me  dizer, penso eu:

            - Ó prof., não esperava que me fizesse “manobrar” de forma tão constante a Enciclopédia Luso-Brasileira. Digo-lhe que sorri e que valeu a pena a sua escrita para me “atanazar”… a aprender o léxico.

            Aqui entre nós, será que vai responder assim, ou com outro texto?




(também publicado no DUAS LINHAS)

 

VM

quinta-feira, 4 de setembro de 2025

 

TERTÚLIA COM O CID ADÃO


 

- Desta vez é autarquias? Eleições? Está bem Cid Adão, então, para mim, é assim: Todos sabemos que as eleições autárquicas existem porque a nossa Constituição confere-nos a existência de “autarquias”, estas como uma forma de organização social e administrativa, é claro. No artigo 235, refere-se que as autarquias são constituídas por pessoas, territoriais, que se organizam sob a forma de Câmaras Municipais e Juntas de Freguesia, com a finalidade de ajudar, resolver e levar a cabo, de modo construtivo, todos os interesses da população, e só, onde estão inseridas, Câmaras e Juntas.

O sufrágio directo, nestes órgãos representativos da população, confere a cada organismo, o direito de execução no “terreno”, o que se delibere internamente, nos órgãos próprios, em prol da maioria dos cidadãos da autarquia e nunca de uma minoria. Se a deliberação for de conveniência para a maioria e se só uma minoria estiver de acordo consciente da votação na proposta, terá que ser convenientemente propalada pela autarquia e se não se obter consenso sobre a execução do que se entende como fundamental para os cidadãos, terá que ser perfeitamente justificada para que todos saibam e respondam, em último caso, em referendo local. Assim são as bases democráticas do funcionamento autárquico.

E agora Cid Adão? Do que todos sabemos, o fundamento, é isto, mas, no terreno? O meu caro amigo pediu-me para lhe dar a minha ideia sobre as autárquicas, comecei por este preâmbulo, muita coisa, mas muita mesmo, teríamos que conversar para sabermos em definitivo, a ideia e a consciência do que é votar nas eleições autárquicas. Não será aqui, era uma conversa para uns dias. Mas abreviando, talvez eu consiga dar uma pequena ideia do que penso do perfil dos candidatos. Talvez um pouco entusiasmada, não ligue ao tom da voz.

- Vou ouvi-lo, mas meu amigo, escolhi o local, hoje, para esta nossa pequena tertúlia diária. O Café Santa Cruz. Só nos medeia a igreja, da câmara municipal, diga lá se não foi boa escolha o local e dirá também de sua justiça sobre o assunto que devia ser objecto de muita reflexão por parte de todos nós. Sabe que o ouço, bom, digamos que religiosamente.

- Não será necessário, sei que o amigo Cid Adão faz sempre as suas análises criticas ao sucedido no país e é assertivo nos seus ditames, embora, vai-me desculpar, muitas vezes só quando o “leite está derramado, numa espécie de VAR.”

- É verdade, é verdade que por vezes me desresponsabilizo, por exemplo, não vou votar… Não me diga nada, não me diga nada…

- Então adiante, amigo Cid Adão, adiante. Ao que penso, sobre o quer e me pediu para dissertar, direi que as eleições autárquicas são tão ou mais importantes que as legislativas. Tirará conclusão o meu amigo do que lhe direi sobre este momento de grande responsabilidade social, por parte de todos os cidadãos.

Ora então, começo por afirmar que ninguém, em circunstância alguma, exerce ou exercerá algum cargo cuja competência para o levar a “bom porto”, lhe aparece por “geração espontânea”! Jamais! Toda a competência tem por base a formação académica, a formação politico/administrativa e a experiência, seja, conhecimentos adquiridos de forma sucessiva, bons e maus, para que o cidadão em incumbência ou até o incumbente, desempenhe o cargo a contento seu, e do cidadão que o tem como “executor de soluções” para os problemas, no caso, da vida municipal. A literacia técnica para esse desempenho, é primordial.

Este item fulcral, a competência adquirida no terreno, aplicando conhecimentos adquiridos pelas várias vias que versam essa literacia, só acontece com cidadãos que se propõem aos cargos, que são funcionários emergentes das autarquias ou da administração pública, com conhecimentos teóricos seguidos dos práticos, por aplicação própria, ou na leitura de bons resultados conseguidos por antecessores do candidato, e aplicados posteriormente por si, sabendo que já resultaram. Não quero dizer que os candidatos têm que ser “experts” absolutos ou uns “skilful” no sentido de negociadores com o governo central, somente, não, terão que possuir aptidões baseadas no aprendizado, nos locais que referi. Nunca vindos dos partidos onde nada aprendem a não ser, numa “aprendizagem por contacto”, digamos que, a contornar problemas, camuflando-os, ou tão só, acrescentar o “numerus clausus” de determinada facção, para mais tarde entrarem com o “cabeça de lista” eleitos para os lugares a que se propõem.

Também a frase do “sangue novo” para a política, sem o respaldo que já referi para exercer o cargo, é uma desresponsabilização analítica por parte de quem profere esta frase. Tantas e tantas vezes é pronunciada.

Como é que pode esse “sangue novo”, responder a um reordenamento foral da comarca quando é necessário, se não faz ideia nenhuma do que é urbanismo? Como responder, por exemplo, a inundações se não se faz a mínima ideia do que é hidráulica e a sua aplicabilidade, dos rios, das ribeiras, dos sistemas de águas pluviais, dos esgotos, quanto custaram, quanto vão custar em caso disso se a sua reorganização for necessária? Como responder a fogos na área do município se o único contacto que se possui com o território é o que dizem os funcionários mais antigos na autarquia, ou o que se diz na sede do partido e sobre os bombeiros tem-se uma ideia da farda… vermelha e azul escura, ou preta? Como responder cabalmente a problemas na educação básica no município se não sabe, por exemplo, o que é uma sala de aulas moderna e como se apetrecha nem ideia  dos currículos dos vários anos? Como responder a solicitações nas áreas de saúde se entende que o centro de saúde se gere sozinho? Como responde aos sectores agrícolas locais, tão importantes para a economia concelhia se a única empresa que conhece é a que lhe muda os pneus da viatura que possui? Como vai conseguir dar respostas satisfatórias aos empresários locais que apresentam problemas vários para conseguirem sobreviver na comarca se não se faz ideia nenhuma do que se labora no município? Como se vai dar a volta a vícios e “cores” partidárias dentro do staff municipal? Para desculpar a inaptidão da sua gestão, vai atirar para “o ar” que a câmara ou a junta não tem dinheiro, sem ter ideia de reuniões com outras autarquias para pressionar o governo para que deixe de dar mais importância a uma pedra no pavimento da Rua da Betesga, que a todo o interior do país? Tem capacidade (fundamentação) para argumentar a necessidade da regionalização, juntando outros autarcas, com o poder central? Demonstrar que a retirada de: escolas, centros de saúde, valências nos hospitais, locais de justiça, delegações bancárias… levaram à debandada de pais, em que os filhos ficaram sem a escola perto de casa, de empresários agrícolas que tiveram que abandonar as suas terras porque os pequenos empréstimos e os pequenos depósitos começaram a ficar mais caros, tempo em deslocações, combustíveis para as viaturas e até as próprias viaturas a necessitarem de outros “arranjos”, oficinas que fecharam porque os pequenos tractores  outras viaturas desapareceram, os mobiliários já não são pedidos, ter justiça fica ainda mais cara porque se perde mais tempo em tê-la e ir ter com ela. Tudo foi acabando e vai acabando no interior porque, a tal “pedra” da rua da Betesga, em Lisboa, tem a importância de todo o interior. O perfil que devemos analisar no candidato leva-nos a apostar que vai ser uma boa aposta?

Tem o candidato, a clareza, a fundamentação e a vontade de exigir um pensamento diferente de entre as vontades decisórias dos políticos, sabendo que os mesmos pensam assim: “Almeida, concelho, 5882 habitantes; Pinhel, 3293 habitantes; Aljustrel, 8874; Vinhais, 2185 habitantes; Castro Daire, 4557 habitantes… nestes casos, um total de 24791 habitantes. Ora, 30% não vão votar, mínimo, temos 17353 votos… não valem a pena”. Acrescento agora, estes votos não contam para que o poder se interesse por… ou com as pessoas a que dizem respeito essas vontades de participação na vida democrática. Nas eleições autárquicas todos os votos são importantes, ganha-se por um, mas o candidato conseguirá ter força anímica para contestar o que for necessário para o bem-estar dos munícipes, frente ao governo, em reuniões? Ou são todos saídos da mesma turma? Vai ter a vontade e competência para tornar o seu município cada vez melhor, mais atractivo para viver, para o investimento local e “exterior”?

Poderá… ser um candidato “dinâmico”, pensando que, para que todos vejam as suas façanhas autárquicas, inaugurará um repuxo no meio do rio referindo que é importante oxigenar a água? Até irá comprar um edifício que servirá, propalará, de museu, casa de espectáculo, e no final… os imóveis não irão ser utilizados, porque “Sua Excelência” é, ou será, mais um esbanjador do erário e gosta de exibições megalómanas, mas quer que o seu nome fique ligado ao repuxo, ou ao edifício entaipado. Ah, Cid Adão, esse “sangue novo”…

O cidadão que se candidata a estas “andanças”, nesta minha maneira de ver, resumida, tem forçosamente que ter literacia técnica. Não podemos correr riscos neste momento de 2025. Basta de não analisarmos o currículo dos candidatos. Não podemos ficar por intenções pronunciadas pelos proponentes aos cargos. Temos que ser responsáveis de uma vez por todas e analisar o currículo dos candidatos! Os “clubes” não podem ter peso sobre a nossa vida social, comunitária! Como é que os “clubistas” locais, por exemplo, permitem que “funcionários dos partidos entrem” nas “sedes dos clubes” locais e anulem quem conhece a terra, tudo faz por ela, e definem, na cara dos locais, que o “Zé Maria Pincel” é que vai ser candidato, “aqui”! Alto e bom som?  É o que se me oferece dizer, meu caro Cid Adão! E o meu amigo não analisa isto tudo? Não penaliza acções deste tipo? Quem manda em sua casa? Já agora, devíamos também mudar o tipo de círculos… Os círculos uninominais são mais importantes que os plurinominais… para mim, seria um misto. Nos plurinominais entra… tudo que interessa, no momento, ao “clube”… Pense. Desculpe, já me estou a desviar e a dar-lhe muito trabalho para coordenar o que lhe disse, não?

- Pois…

  A melhor cabidela de galo do “planeta”                 Nem todos gostam. Nem todos a sabem fazer e ainda nem todos conseguem finaliz...