ESCLARECIMENTO
- Hoje é dia para conversarmos, se
calhar do mesmo. Somos sete, eu só venho até cá, de dois em dois meses… mais ou
menos, mas não tenho esclarecido o que aconteceu nas últimas eleições,
calhando, défice de compreensão da minha parte. Nunca nos zangámos ao abordar
este tema, claro, somos amigos e as amizades vão muito além das politicas,
embora elas impliquem com a nossa forma de viver. Então, começo eu… ou algum
dos presentes tem alguma declaração a fazer?
- Estou em crer que afinal, o “alentejano”
és tu. Onde é que não percebeste? Compreendes devagar apesar do que já dissemos
por aqui, mas escuta, não te estiques muito, que estou com cãibras nos cabelos,
mas vá lá, moenga aí o nosso juízo.
- Eh, Luís. Que feitio…
- Já o conheces, moço.
Perante o sorrir dos demais, Cid
Adão, responde:
- Também é simples o que vou
referir, perguntando…
- Avanta o que remoeste…
- Bom, estou a ver que está tudo de
acordo com o Samuel. Então as perguntas são simples, cá vão, mas faço primeiro
uma reflexão…
- Anda moço, reflexiona lá para
ouvirmos.
- Ok. Então, o socialismo
democrático…
- Já cá faltava essa, moço dum
“cab…”, tanta vez martelámos isto… bom admito que não percebas, não és
alentejano, mas não é por isso só…
- Samuel, calma. Só quero perceber
uma coisa simples, a votação na extrema direita, seja, passar de uma esquerda
para o outro extremo… Bem, o socialismo democrático tem por objectivo, falo na
sua base é claro, agora não é bem assim, ou seja, tendia a anular os
procedimentos capitalistas para se entrar por uma apropriação, em colectivo
digamos, dos meios de produção, mas por via democrática, diálogos, votações,
sem recorrer a processos revolucionários tradicionais, então, o tipo de
socialismo que agora “vigora”, está mais consentâneo com a social-democracia
onde se concorda com o sistema capitalista como meio de desenvolvimento social
tentando sempre suprir desigualdades sociais ao redistribuir riqueza. O PS e o
PSD sempre conviveram nesta nossa sociedade e foi quem levou isto em frente,
umas vezes mais para o lado direito, outras vezes mais para o lado esquerdo,
certo?
- Não é que o moço está a dar no
prego? – Ironiza António.
- Até aqui sabemos. – Continua Cid
Adão. Mas o que pretendo ver esclarecido na minha cabeça é que, sabendo as dificuldades
que se passaram aqui no antigamente, muita fome, sem empregos, e só com uma
revolução é que isto virou, para melhor. A fome foi travada, o Alentejo foi
paulatinamente melhorado…
- Aí é que tu tens o teu engano!
Melhorado onde? Sem projectos, sem orçamentos capazes, com subsídios dados a
quem não trabalha…
- Espera aí Zé, espera aí! –
Interrompe Cid Adão. Não me digas que querias que te dessem um sapo de louça
para colocares na porta da rua…
- Vês, não és alentejano. – Responde
Zé. Continua: Não é por aí, olha, para te resumir a coisa, onde estão os
“cabr…” dos políticos quando é necessário melhorar a vida das pessoas nas
cidades e vilas do interior? Onde estão, quando é necessário tratar da água,
por exemplo, para se beber? Onde estão, para facilitarem a vinda de empresas
para este interior? Onde estão, para não permitirem o cultivo intensivo de
espécies que não têm água para rega e a vão retirar às pessoas? Onde estão, se
não para autorizarem o enterro de toneladas e toneladas de desperdícios da
azeitona nos subsolos para contaminarem as poucas águas subterrâneas que
existem e informam que ainda, por lei, há espaço para mais? Onde estão, quando
é necessário repavimentar as estradas no Alentejo que se encontram cada vez
mais miseráveis? Onde estão, quando queremos sinal na rede dos telemóveis em
tantos e tantos quilómetros no Alentejo e até em todo o país, mas cá, a
autoridade para as telecomunicações, serve para alguma coisa? Escuta, exemplo, se
vens de Ourique e vais para Odmira… sentes que estás a ter qualquer anomalia na
tua saúde, um AVC, ou o carro avaria, ou até tens um acidente. Experimenta
telefonar a pedir socorro. Onde é que está o sinal no telemóvel? Ficas apeado
ou morres a esperar por socorro. Olha, lembro-me, ias de Penacova para Coimbra
e comecei a falar contigo, só uns dois ou três minutos e perdeste a rede.
Porquê? Onde estão os políticos de escolinha, quando necessitamos de centros de
saúde melhor equipados? E escolas melhoradas? E agências bancárias que não
pensem só no lucro e nos façam andar dezenas de quilómetros para tratar de
assuntos financeiros? E delegações das finanças? Onde estão os políticos de
pacotilha, que cortam orçamentos para a saúde, para o ensino, para as
autarquias e… agora sou venenoso, os dão ao Moedas, porque vale mais uma pedra
da calçada na Praça da Figueira, do que o Alentejo todo, diz-me, onde está a
dotação financeira para o desenvolvimento desta província? E os projectos que
lhe deviam caber para o seu desenvolvimento, onde estão? É só secar o aeroporto
de Beja? É à custa deste interior que vive todo o litoral? Até nem é esse dito
todo, porque afinal, o que conta para o país, é só Lisboa e Porto! O país é
pobre, é? É! Só em algumas regiões? Ou devem ser consideradas todas por igual? Porque
é que Lisboa, por exemplo, não larga a região do vale do Tejo, a área de
Setúbal? É que ao orçamento geral de Lisboa, interessa em conjunto com a região
de Setúbal? É que a região de Setúbal, não interessa aos Setubalenses, é? E
agora, ó alentejano de adopção, o que me dizes?
- Cid Adão, queres que seja eu,
agora, a falar do resto do país? Começando pelas tuas Beiras? – Atalha António.
Cid Adão responde:
- Já provaram estes pasteis de nata?
Belíssimos. Sempre disse que aqui eram muito bons. Vocês já sabiam, é claro…
Não
sei se por agora, ainda se salva o pastel de nata…
VM