BARRETE
PARA UM DESAVISADO…
De repente deu conta que, no partido
para onde tinha entrado, não se podia pensar, disseram-lhe outra coisa quando
foi convidado. Ia pensar pela própria cabeça. Dar opinião, tirar uma ideia juntando
as várias que os companheiros também dariam e a partir daí, ficarem com uma opinião
de grupo, vinculativa, para ajudar, enfim, no que dizia respeito à moção a
tratar… No anterior também era assim, mas com poucos resultados. Ficou de cenho
levantado e preocupado. Resmungou em voz baixa:
- Afinal, vim para ser útil, para ajudar
a mudar coisas que considero erradas, assim me informaram ser, e… Mau, queres
ver que não estou no sitio certo? No anterior partido ouviam-me, debatia, muito
embora não resolvêssemos muita coisa a contento do grupo, mas debatíamos,
chegávamos a um consenso. O estar lá não me chegava e por isso é que mudei. “Porque
aqui temos mais força”; até foi com essa frase que me convenceram. Não estou a
perceber, nem a perceber-me. Esta agora! O que é que fiz de errado ao ter
entrado… neste meu novo capítulo de vida social? Descreveram-me ser o sítio
ideal para mudar a nossa vida social: “Denunciar a corrupção e os corruptos,
denunciar os compadrios, denunciar os grandes lucros que não pagam impostos,
denunciar os que recebem subsídios e nada fazem para merecê-los, criar textos
para que o partido, na assembleia da república, legisle em favor do povo…” Alto
lá! Afinal o que é isto? Aqui não é um local onde impere o diálogo, isto é uma
“fila indiana” de ideias pensadas e detidas por quem está na cabeça da fila e
de lá ordena as suas directivas para o grupo, isto em relação ao “percurso” a
ter. Bonito serviço…
Foi a uma estante, rebuscou uns
papeis e retirou um pequeno bloco. Folheou e leu:
“ Defendem-se os valores
tradicionais, a nação como referência e a cultura nacional…”
Foi
até ao computador, abriu-o, digitou algo no programa de busca… carregou no
menu… 1942… “princípios organizativos”… “
fundamentos ideológicos…” abriu, leu:
São princípios: a defesa dos
valores tradicionais, a nação como referência principal, a manutenção e
desenvolvimento fundamental numa cultura nacional.”
Isto era a ideologia hitleriana…
estou perante uma cópia… até na confessada escrita, a vontade em destruírem o
sistema, o bloco central (PS e PSD). No momento, não entram declaradamente em
“guerra” com o PSD, porque este está no governo e é necessário para,
paulatinamente aprovarem os “seus interesses”… mas verbalizam sistematicamente
que o socialismo tem que desaparecer e para que isso aconteça, tem que se alterar
a constituição… sim senhor, para que o socialismo democrático, igual à social-
democracia… ou seja, quem fez evoluir o país até agora e que graças a esses
dois partidos, o povo deixou de ser paupérrimo de bens materiais e cultura…
deixem de existir e fique o que entendem para principio da sua entrada no
governo… deixa-me ler outra vez o papel do estado: “Redução do estado nas suas funções, diz aqui… reduzir ao mínimo as funções do estado”… praticamente anular o papel
do estado… não intervir no auxílio a minorias… reforço da ordem e da lei,
acabando com ideias de manifestações de protesto “sem lógica”, porque tudo será
tratado em benefício do povo e em tempo útil. Esta agora… estou mesmo no centro
da perseguição ao direito das pessoas se manifestarem como o fazem num regime
democrático. Isto, é só ler nas entrelinhas e ver os partidos de extrema
direita a actuarem no terreno. Só um “cego” é que não lê e não interpreta… por
não saber…
O que faço… comparando… no essencial,
isto não é mais que os SS… claro, não leio a ideia dos nazis, aqui declarada, é
que a linguagem que aqui está escrita sobre as bases do partido, está mais
consentânea com a actualidade, mais moderna. Bom, penso que vou pelo mesmo
caminho de onde vim… A minha mania de não “fazer o trabalho de casa”, de não
ler, ver, ouvir, reflectir e ser simplesmente um… nem consigo adjectivar-me… Não
vou esquecer aquela “dica” do “meu correligionário, daqui”, a informar-me que o
que devo estudar, aliás, até sublinhou: “Aqui estuda-se. É ouvires, leres as
directivas do presidente, estudares os seus pensamentos sobre os assuntos e
frisares, quando te solicitarem, com as tuas palavras é claro, com a tua
vivência, o que ele quis e quer dizer, e só isso! Toma nota, para que não se
saia do “foco” do que ele pretende. Tens de ouvir o que o presidente diz e
disse sobre a corrupção, os corruptos, o compadrio entre, toma nota outra vez,
sempre, quem interessa derrotar no parlamento. Aproveita a altura, sempre para
destruir os referenciais do socialismo e da social democracia, mas no momento o
socialismo, em voz bem “cheia”. Nas entrevistas, falar sempre sobre o que os
outros estão a dizer para não lhes darmos hipótese de exporem ideias ou
contrariarem as nossas. É ponto sagrado dele essa referência, repara que só em
uníssono é que conseguimos ter uma voz mais actuante e deixar sem argumentos os
outros. Como vês é importante a tua voz no partido. Nos outros nada se consegue
e então naquele, onde estavas!”.
Pensando bem, isto não é mais que um
partido Bonapartista, e declaradamente! Isto não interessa a nenhum democrata.
Como o sou, não enveredo por sistemas autocráticos, porque:
- Penso; Intervenho; Consensualizo; Reorganizo;
Actuo; Socializo.
É nesta situação e nestes moldes, que
está o “meu partido”, um partido democrático que pretendo sempre actual,
interventivo e que deve servir toda a população, não alguns membros do partido.
Já disse: Não posso aderir a um partido ou tomar parte das ideias de qualquer
um deles, por preguiça, e estar pouco interessado em ajudar a sociedade onde
vivo, tomar as ideias de outros, impostas, como minhas, nunca! O meu caminho,
afinal, para ser socialmente útil, é o de volta.
Nas ilusões onde por vezes mergulhamos, o
caminho de volta deve ser sempre rápido para não termos tempo de nos
descobrirmos uns: “simplórios desavisados”.
VM