CONTRIBUTO PARA UM EXORCISMO
Este texto não é produzido por
nenhum sistema de IA. Foi elaborado
com base no humano pensamento,
e
conhecimentos do autor.
Podíamos
começar por Moçambique, Cabo Verde, Guiné… mas vamos começar por um território
que conhecemos razoavelmente, em termos de história, etnias…
A marcação do território de Angola, começa em
1482 com Diogo Cão, que começa a juntar num sítio próximo de São Paulo da
Assunção (Luanda), alguns povos da beira mar. Por conhecimento “in loco”, os
nativos foram presenciando o que se passava com o pessoal “estranho” (brancos),
que davam víveres em troca da ajuda nas edificações que iam fazendo para assim
cimentarem a sua presença naquelas paragens.
Portugal começou a ter uma presença
significativa em África nas duas costas do continente africano. Em 1575, Paulo
Dias de Novais, delimitou em Angola uma vasta área, que no século XIX, seu
princípio e anos subsequentes, deu lugar à marcação territorial, ao domínio
efectivo do terreno e também à colonização efectiva do território. Portugal tem
o inventário exaustivo de todos os povos das suas colónias, suas localizações
originais, proximidades e, ou, consanguinidades com outros povos, desde que
assumiu a sua presença em África.
Do que existe em “inventário”, tomando como
exemplo povos de Angola: os Maiacas, localizavam-se na sua grande maioria no
Congo Belga e uma faixa, pequena em Angola, esta, situando-se ao longo da
margem esquerda do rio Cuango. Este povo é o cruzamento de Congos e Lundas, os
primeiros provindos de São Salvador do Congo e os Lundas do reino de
Muata-Ianvo. Desta dispersão, digamos, é
que surge o “povo” Maiaca. Tudo isto está perfeitamente documentado, bem como
de todas as etnias das ex-colónias.
Nos mesmos moldes, Moçambique, Guiné, São Tomé…
também foram marcados todos os territórios. Ao tempo, o mundo queria que essas
demarcações fossem feitas como prova de pertença de quem as proclamasse, com
provas cartográficas, e as registasse suas.
Deixemos o que fizemos bem feito e passemos a
dizer do que se ouviu, até agora… tanta… parvoíce, tanta falta de conhecimento,
cultura e, depois de tantos anos passados, (52) o que fazer, para este nosso,
até que é simples, caso? Um infinito luto? Ouvir, dito com uma sobranceria inculta,
a culpabilização do seu estado actual por quem ficou com territórios (países) a
funcionar em pleno? Mas se alguns fantasmas nos atormentarem, sem razão? Faremos
o exorcismo deles! Lembrar continuadamente a nossa história em modo pedagógico,
não da pessoal, da de todos, dos de lá e dos de cá? Conversar resumida e
informalmente, um pouco, sobre o assunto, valerá a pena?
Muito bem, vamos então por aqui, uma última
vez. Passarei a informar, o que todos da minha geração e poucos jovens sabem, e
até aos que não querem saber, que Portugal foi a primeira potência colonial
europeia a entrar em África nos finais do século XV até meados dos anos 70 do
último século, tal como a Espanha, foi dos últimos a sair. A razão de tal
longevidade em África deveu-se, é credível por isso consensual, há neutral
posição que Portugal manteve durante a II guerra mundial. Portugal sempre
manteve uma crença, a da sua missão civilizadora, e como tal, a necessidade de
manter essa vocação histórica. O facto é que as colónias contribuíam significativamente,
dado o nosso investimento para que assim fosse, para a economia global portuguesa,
por muito que se fizesse politicamente crer que não. Na investigação por nós
feita, conseguimos dados sobre esse retorno do investimento, mas quando
quisemos levar a investigação há exaustão… não conseguimos documentos
essenciais. Conseguimos uma fonte que adiantou pouco mais do que o que tínhamos
investigado, no caso das contas publicas até Abril de 1974. Assim só podemos
dizer o que “sempre” se dizia pelo “puto”: “A metrópole” é que pagava tudo…
Pensemos: Com a força do trabalho e respectiva
produção, o que a metrópole vendia a nível mundial? E o que investia nas
províncias ultramarinas… em desfavor do povo metropolitano? Era o contrário o óbvio,
o investimento necessário era sonegado ao povo, só se acumulava ouro.
Informemos para que a história tenha
consistência no que se quer informar, que já nos anos 50 do século passado não
se fundamentava, nem historicamente ou verificada no terreno, a presença de
Portugal na África, na discriminação racial, mas sim na assimilação dos
naturais de África. Entretanto a legislação muda e oficialmente em 1951, as
colónias voltam a ser províncias do país, até com representantes na Assembleia
Nacional em Lisboa. Mas a política económica e social portuguesa, nas parcelas
de África, permanecia bastante ambígua como sempre somos capazes de fazer
acontecer.
Em Angola, nos anos cinquenta do século
passado, a quantidade de trabalhadores contratados foi significativamente
aumentada. Isto é histórico! Qual o objectivo? O de aumentar as exportações do
café e de algodão fundamentalmente. Mas esta assimilação dos povos das
províncias ultramarinas, ficou muito aquém das intenções.
Recuemos à Constituição de 1933. Nela está
expresso a necessidade tal como o objectivo, de se continuar com a assimilação.
A verdade é que o que aconteceu paulatinamente, foi a divisão da população.
Naturais e não naturais. Os não naturais, que ficavam sujeitos às leis
portuguesas, eram: os brancos, os mestiços e os assimilados, ou seja, a pequena
franja burguesa dos naturais residentes nas províncias. Todos estes tinham
direito a voto. E os “naturais”? E os brancos, mestiços… nascidos nas
províncias não eram naturais? O que era verdade no terreno é o pensamento
(estrutural) na época, naturais e não naturais é um pensamento racista.
Em 1965 eram ainda poucos os assimilados com
estatuto, sendo assim, não é surpresa nenhuma ver que os chefes dos grupos
nacionalistas se contavam entre os mestiços e assimilados. O tribalismo acabou
por ser um factor decisivo para a formação dos grupos nacionalistas. Na Guiné,
o PAIGC que foi fundado em 1956, era composto por assimilados urbanos da cidade
de Bissau, e membros do povo. O povo Balanta. Eram mais ou menos vinte por
cento da população. Os Mandingas e os Fulas eram leais a Portugal, podemos dizer
que entendiam a evolução como necessária dado que nenhuma repressão era visível
no terreno...
Em Moçambique formou-se uma coligação com
vários grupos com predominância da etnia Maconde, sensivelmente dois por cento
da população.
Em Angola as formações dos grupos de libertação
eram heterogéneas. O MPLA fundado em 1956 em Luanda. Continha no seu seio os
assimilados urbanos da capital e nos arredores da cidade, os de etnia Mbundu. A
FNLA surge das reivindicações do povo rural Bacongo no norte do país. Era
dirigido por Holden Roberto, sobrinho do herdeiro do reino, que Portugal fez
substituir por outro indivíduo. Os tais erros históricos, fundamentados na
troca, como forma de enfraquecer os legítimos herdeiros e colocar do lado de cá
(Portugal) os outros que nunca tiveram nada.
A etnia Ovimbundu no sul, e a etnia Chokwe no
leste, apoiavam também este movimento de libertação. Mas a UNITA consegue
trazer para as suas fileiras a etnia Chokwe. É fundado o movimento em 1966, por
Jonas Malheiro Savimbi que por razões pessoais e políticas, se desliga do
movimento de Holden Roberto.
Em Agosto de 1959, as autoridades portuguesas
na Guiné, na pessoa de cipaios, mataram cerca de 50 indivíduos, justificada
atitude, diziam os dirigentes da altura, por terem feito greve nas docas de
Bissau…??? Claro que esta tinha sido feita propositadamente, a contestar a
presença colonialista. Ideias já em circulação, sobre os movimentos para as
libertações dos povos colonizados. Agora, em Angola, após uma série de ataques
dos movimentos de libertação, estes, começaram com uma mortandade no norte de
Angola de forma bárbara, as autoridades portuguesas tomam atitudes semelhantes
às da mortandade na Guiné. Isto no dia 15 de Março de 1961. Outro disparate
politico e militar.
Tratou-se de uma revolta na região do Uíje,
numas roças de café. O seu inicio foi de tal ordem que os movimentos de
libertação mataram cerca de 7000 pessoas, entre brancos das fazendas e
indígenas leais. Esta atitude foi algo surpreendente para os portugueses, dados
sempre, e eternamente, a não planearem o futuro. Sem preverem nada, e sem
quererem intervir da mesma forma, logo, sem saber o que fazer, deixaram “correr
o marfim”. Desde o Brasil que isto se prova e agora continua dentro do nosso território.
Sempre que constatamos, “pequenos passos”, dados no florescimento da economia
nacional, esses “milagres” são sempre acompanhados por bombos e charangas a
assinalar esses pequeninos avanços. Por cá, nunca se conseguem multiplicar
esses avanços. Bom, mas naquela altura do massacre nas fazendas de café,
segundo dados que estão à nossa disposição, Portugal só tinha 3500 efectivos
militares em toda a Angola, no Norte praticamente ninguém, simplesmente
abandonado. Começaram o massacre por lá, porque seria?
Foram dadas concessões por parte do governo
central, imediatas, para suster esta onda de revolta libertacionista,
sustentada na pretensão: “A abolição do cultivo obrigatório de colheita, para
exportação”. Verdade se diga que tal “cultivo obrigatório” não era sentido como
obrigatório por parte dos grandes produtores, só o era como imperativo para
aumentar a sua qualidade de vida e com isso desenvolver a terra, isto porque
para o branco local, a metrópole não era efectivamente aquela mãe pátria que
devia ser sempre venerada, não! Era considerada por quase todos, como madrasta
no sentido negativo do termo, logo, essa ordem de cultivo obrigatório só
poderia ter sido um complemento de personalidade para que, um qualquer
dirigente no “puto”, se tenha sentido, nesse momento, dono de um império, ao
legislar tão “profundamente”! Temos sempre este tipo de genialidade. A verdade
no terreno era o “estarem-se nas tintas” para tal determinação.
Os habitantes das províncias, salvo alguns
“afilhados do governo”, principalmente em Angola, não queriam saber o que se
pensava na Metrópole. Mas, apesar de tudo, o certo é que aconteceu uma maior
autonomia das províncias e acabou-se com a assimilação. Qualquer cidadão
africano era igual a qualquer europeu. Mas estas concessões “escritas”, vieram
tarde de mais, como sempre, até porque os movimentos de libertação por toda a
África, estavam a dar os seus frutos e não seria na África Portuguesa que se
iria parar, ou retardar esse movimento de libertação global!
Em 1964 a FRELIMO começa a sua guerrilha em
Moçambique com o total apoio da Tanzânia. Em 1971 a FRELIMO contava, dados da
altura, com cerca de 7000 guerrilheiros mas não conseguia penetrar mais além
que Cabo Delgado e Niassa.
Só em 1968 é que começou a infiltrar-se em
Tete, a partir da Zâmbia, com esta sempre a dar apoio, como forma de fazer
perigar a barragem de Cabora Bassa, mas nunca conseguiu interromper os
trabalhos da barragem de maneira eficaz. Em Junho de 1975, Moçambique torna-se
independente.
Em Setembro de 1974, foi a vez da Guiné.
Em 11 de Novembro de 1975 Angola atinge o dia
da independência, mas a existência de movimentos rivais não permite que a paz
dure muito tempo.
Em Outubro de 1975, a FNLA e a UNITA, com o
auxílio da África do Sul, esta desprotegida agora ao longo da sua fronteira,
pelo abandono de Angola por parte de Portugal, avança sobre Luanda, a partir do
Sul, enquanto a FNLA penetra pela região Norte.
No dia 7 de Novembro, a pedido do governo de
Luanda, ou instada a isso, a Rússia por intermédio de Cuba, envia tropas, “naturalmente”
cubanas, para Angola. Parte destas, numa força aerotransportada, confluem
juntamente com as tropas do MPLA sobre a FNLA e destroem este contingente.
Resumindo, estes movimentos não teriam sido
possíveis sem o apoio dos países vizinhos, Zaire, por exemplo, em Angola. A
FRELIMO beneficiou porque os Macondes vivem dos dois lados, de Moçambique e
Tanzânia.
Na Guiné o PAIGC, operava a partir do Senegal e
da república da Guiné. Algumas incursões do movimento, sobre a Guiné
Portuguesa, tiveram o apoio da artilharia Senegalesa. O Zaire era o refúgio da
FNLA porque o seu presidente na altura, Mobutu, era cunhado de Holden Roberto e
enquanto foi presidente, deu sempre todo o apoio a esse movimento.
Em Angola as forças portuguesas, perto de 1970,
eram um número que atingia, quase os 60 000 efectivos, mas as patrulhas
terrestres eram, agora, na proporção de dois ou três portugueses para 20 ou 30
africanos.
A metrópole começava a agitar-se seriamente
contra a ida de soldados para as Áfricas, milicianos é claro, e não era
possível, “teoricamente”, sustentar um património com aquelas dimensões, apesar
de a concessionária do petróleo em Cabinda, pagar de renda praticamente a guerra
toda anualmente, a somar com a “renda” dos diamantes, ferro, etc. Tudo isto era
uma “forma” de acumular ouro para a metrópole que não tinha “negócios” com a
Europa porque esta lhe virou as costas, fazia muitos anos. Mas a informação
dada aos portugueses continentais não era de molde a dar a entender que a fonte
de riqueza era Angola, em grande parte, trabalho de colonos. Aumentava nas
províncias uma guerra surda da população, apesar dos portugueses possuírem uma
forma de ser e de estar, diferente de qualquer outro povo no mundo, que tivesse
tido colónias, claro, com muitos erros pelo caminho. Essa guerra velada,
apoiada também nos princípios libertacionistas, pressionou também ao golpe
militar de 25 de Abril.
Na Guiné verificou-se que os militares
profissionais portugueses eram confrontados com o crescente desinteresse em se
manterem no território por parte dos soldados. Muitos dos subalternos, no
exército profissional Português, eram contrários à guerra, uns por convicção,
outros porque não queriam estar no seio dela.
Portugal cometeu erros históricos na presença
em África, com objectivos mal traçados. Caiu de maduro o império. É lógico o
governo do país ter caído em vinte e cinco de Abril de setenta e quatro. Atenda-se
entretanto, ninguém “roubou” ninguém. Ninguém, na altura da “nossa” chegada por
essas paragens, estava num restaurante, ou numa esplanada a comer bifes ou
beber vinho ou cerveja. Portugal deixou países, modernos, a funcionar! Morreram
muitos seres, morreram muitos sonhos, mas renasceram povos! Infelizmente… alguns
deles, ainda se encontram em cuidados continuados… vá-se lá saber porquê.