quinta-feira, 18 de setembro de 2025

 

 

QUANDO SE ESCOLHE O NÉCTAR


 

            Encontro-me a ver os escaparates dos vinhos num centro comercial. Estou acompanhado do meu amigo Cid Adão, “exímio” na escolha do precioso néctar. Olha os rótulos, lê as castas… as graduações, franze o sobrolho… agora, noutras garrafas, sorri imperceptivelmente, olha o preço e a algumas garrafas, que elege, mete-as no cesto que a superfície comercial disponibiliza e segue para analisar outras. Por vezes resmunga em voz baixa. Sigo-o a curta distância.

            - Ó prof, não compra nada? Estão aqui umas garrafinhas muito interessantes, algumas estão caras para o que contêm… Por exemplo, esta: “Touriga nacional, touriga franca, e alfrocheiro. Alfrocheiro é uma casta que dá uma cor forte ao vinho, esta casta dá o “ar” de carrascão, mas 4 Euros e 80 cêntimos, é elevado para o vinho… pelo menos vindo do produtor que está aqui indicado.

            - Só bebendo, não? –Digo eu.

            - Não, nem é preciso beber.

            - Ó Cid Adão, sei que o meu amigo percebe “da coisa”, mas, agora fez-me lembrar uma passagem minha por um certame… Um dia, estava numa feira em Mangualde e ao apreciar uma garrafa, a olhar para o preço, oiço uma voz, atrás de mim: “Acha que é caro o vinho?” Virei-me, era o antigo ministro e deputado, Jorge Coelho, já falecido, a fazer-me a pergunta. Continuou: “Preço do vinho calculado depois do esmagamento da uva, demora temporal em estagio, nem que seja um pouco, digamos que um mínimo, um ano. A demora, esse tempo, convertido em dinheiro despendido pela adega, neste caso. Podia ser um produtor particular, seria a mesma demora e a verba empatada sem lucro, é idêntico. O preço da garrafa vazia. O preço da rolha, nesta altura é cara, isto porque um bom vinho merece sempre uma boa rolha, não são baratas, digo-lhe. Um rótulo, cujo preço, não é de graça, tem o envolvimento de designers. Quero dizer, no fim disto tudo que, sem contar com as despesas administrativas e de venda através de alguns funcionários…

            Respondi sem o deixar acabar:

            - Meu caro doutor, por esse lado é a mais pura verdade, é exactamente assim que se passa nos “trajectos” da enofilia, seja, no terreno. Pelo meu lado, agora, o do cidadão que vem ver a feira, sem saber, ou pensar nestas coisas…

            Também não me deixou acabar:

            - Pois é assim, está caro para a nossa bolsa. É verdade sim, mas olhe, quem produz e mantém postos de trabalho, tem que ser valorizado… não estão caros, os vinhos, paciência, vamos só ao que podemos e isso já é muito bom. Desejo-lhe um dia feliz.

            Despedi-me dele e coloquei a garrafa no local original. Foi assim amigo Cid Adão.

            Cid Adão, como amigo que é, responde:

            - Prof., aceito o que refere, tem razão nessa alusão, mas oiça, já agora e dado que é um vate, podia escrever alguma coisa em favor deste néctar que dá de comer a tanta gente. Queria ver o que se lhe oferece, nesse sentido.

            - Pois vou pensar nisso, irei escrever alguma coisa já que me pede, até vou dedicar o texto em forma de poema, ao ilustre Cid Adão.

            Resolvi escrever um poema simples para “moer” a cabeça do meu amigo Cid Adão. É assim:

 

O NÉCTAR

 

“Desde os pródromos mais prístinos

Que os nossos ressessos ancestros,

Estereotiparam, no estendível

Do ancestral regalório,

Uma enofilia, que se tornou beneficente

E simultânea, a efeitos peristálticos

E ligeiramente, quando menor, analgésicos,

Mas sempre, frisemos, edificantes…

Ora, os bagoados resultados da flor,

Do arbusto sarmentoso, tão estimado,

Que na frutescência deram o seu melhor,

Vão à pisada. O que daí sai é um hino que…

Posterior ao estado fermentáceo é dionisicamente

Honrado nos púlpitos do nosso consciente,

e o era, nas ambarvais de antanho.

Era, o requintado corpo que toma a forma

Do vaso que o contém, dado a fiomélicas pessoas para cura!

Não menosprezemos, nunca, o que é sublime!”

 

            Cid Adão ainda não me disse nada ainda, mas quando ler o que escrevi vai-me  dizer, penso eu:

            - Ó prof., não esperava que me fizesse “manobrar” de forma tão constante a Enciclopédia Luso-Brasileira. Digo-lhe que sorri e que valeu a pena a sua escrita para me “atanazar”… a aprender o léxico.

            Aqui entre nós, será que vai responder assim, ou com outro texto?




(também publicado no DUAS LINHAS)

 

VM

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