O MENINO E A LUZ DO PIRILAMPO
Era
uma vez um menino chamado Cid Adão. Tinha decidido apanhar um pirilampo, daqueles,
dos que brilhavam muito no meio dos “outros”, para que iluminasse a sua vida,
quando chegavam os medos da “noite”. O que ele sabia, e até via, o brilho do
pirilampo, era uma ”luz” irradiada por ele, a que lhe iria iluminar a “noite”, altura
em que lhe apareciam muitos medos… também pressentia que aquele brilhar intenso,
era com toda a certeza, melhor do que a “luz antiga” que tinha, e toda a noite
ou para sempre, seria iluminada e assim, perderia os medos. O pirilampo
tinha-lhe prometido que sim, que a sua luz era a mais brilhante de todas as que
andavam pelo “bosque”, pelas ruas, trazia a “verdade”, e o menino ouvia-o,
acreditando em tudo que eram promessas.
Veio
para a rua, conversou com os amigos, alguns disseram-lhe que essa luz era a
melhor de todas, outros alertavam-no para não ir procurar o pirilampo, porque
essa luz era de fantasia, ele, se o “apanhasse”, iria ver que não iluminaria
nada, que afinal a luz irradiada, teria no máximo metade do que prometia porque
era muito, mas muito intermitente, e era só quando o pirilampo queria, então se
o “apanhasse”, não lhe serviria para nada, o seu quarto continuaria com a luz
antiga, ou pior. Seria depois, muito difícil livrar-se do pirilampo, porque acabaria
por ter pena dele e, por frustração não assumida, justificar sempre, aos amigos,
o ter entrado para “aquela luz”. Devia era ir mudando a luz do quarto para
outras mais modernas, mas com segurança, estudando sempre a luz que lhe
interessava.
Ora
o menino não gostou do que lhe diziam, “estudar outras luzes”, para quê se tudo
já estava delineado e ele acreditava nisso, e claro, no que o pirilampo dizia.
Não tinha tempo para estudar “essas coisas deles”. Se a “luz” iria acabar com
os seus medos, porque razão tinha que ouvir as opiniões dos amigos que não
gostavam do pirilampo? Muitos amigos, desses, até diziam ao pirilampo que ele
era uma fantasia, que só se apresentava a piscar de quatro em quatro, ou cinco
em cinco anos, aqui, o pirilampo sorria para dentro porque ninguém sabia o que
ele sabia, só vivia sessenta e um dias, e a sua irradiação eram só dois dias, mas
não interessava, o que interessava é que ele seria muito bem tratado durante a
sua vigência pelos que o apoiavam e queriam a sua luz para se iluminarem.
Saiu
o menino para as ruas e bosques com uma rede para apanhar um pirilampo. Não
precisou andar muito. O pirilampo que ele conhecia estava ali, na sua frente e
perguntou-lhe:
-
Para que queres a rede se eu sou livre e tu também? Eu tenho a luz que queres,
não necessitas andar de rede para me apanhares, como vês até fui ter contigo, é
que és verdadeiro, queres acabar com a falta de uma luz autentica na tua vida,
queres acabar com a falta de felicidade. Sou eu que vou iluminar as tuas
“noites”, sou eu que vou acabar com os medos que tens, dando-te esperança,
desde que me apoies sempre. Não ligues ao que dizem de mim, se vires, os teus
amigos não têm luz à noite no quarto deles, não são meninos felizes,
ralham-lhes muito e não querem que eles brinquem quando querem. Comigo, vais
ter tudo para ser feliz.
O
menino agradeceu e foi para casa. Em casa descobriu que o seu pai tinha
colocado uma nova luz no quarto e que a luz era muito mais bonita que a que
estava lá. O pai disse-lhe que era altura para mudar para outra melhor, e
explicou-lhe o que era a “nova luz”. Ficou muito contente, pensou: afinal de
luz em luz podemos perder medos. Pensou muito, lembrou que a luz do pirilampo,
a que afinal não está sempre acesa, e só, pensou, até quando o pirilampo
quiser… Quando apagou aquela nova luz, notou que tinha perdido alguns medos.
Para surpresa sua, viu sobre a cómoda do quarto, um pirilampo que sorria para
ele e piscava, ora dando luz, ora não. Afinal a luz que o pai colocou e o
informou disso, era bem melhor que a do pirilampo. Acabou por ver que ele só
era “engraçado” e de facto não dava luz nenhuma para afastar os medos que agora
já não tinha tantos. Deu conta, com satisfação, que com mais luz, a que lhe
tinha dado e explicado, o “pai”, os medos estavam, mesmo, quase todos
afastados. Os amigos afinal tinham razão, o tal “de pirilampo, é uma luminosa ficção
que não os liberta dos medos”, os tais que até ele diz, há que eliminar, e que
só acontecerá se for na sua companhia. Pensou: “Quão infeliz é o pirilampo que,
afinal, só vive 61 dias, não ilumina nada, e começou-se a descobrir que, afinal,
a sua luz é efémera, porque é uma perfeita ficção, uma modelação do próprio…”.
Acabou por adormecer sorrindo e o brilho do pirilampo… apagou-se naturalmente.
Victor Martins
(Também publicado no diário online Duas Linhas)
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