domingo, 31 de maio de 2026

 

BARRETE PARA UM DESAVISADO…

 

 

            De repente deu conta que, no partido para onde tinha entrado, não se podia pensar, disseram-lhe outra coisa quando foi convidado. Ia pensar pela própria cabeça. Dar opinião, tirar uma ideia juntando as várias que os companheiros também dariam e a partir daí, ficarem com uma opinião de grupo, vinculativa, para ajudar, enfim, no que dizia respeito à moção a tratar… No anterior também era assim, mas com poucos resultados. Ficou de cenho levantado e preocupado. Resmungou em voz baixa:

            - Afinal, vim para ser útil, para ajudar a mudar coisas que considero erradas, assim me informaram ser, e… Mau, queres ver que não estou no sitio certo? No anterior partido ouviam-me, debatia, muito embora não resolvêssemos muita coisa a contento do grupo, mas debatíamos, chegávamos a um consenso. O estar lá não me chegava e por isso é que mudei. “Porque aqui temos mais força”; até foi com essa frase que me convenceram. Não estou a perceber, nem a perceber-me. Esta agora! O que é que fiz de errado ao ter entrado… neste meu novo capítulo de vida social? Descreveram-me ser o sítio ideal para mudar a nossa vida social: “Denunciar a corrupção e os corruptos, denunciar os compadrios, denunciar os grandes lucros que não pagam impostos, denunciar os que recebem subsídios e nada fazem para merecê-los, criar textos para que o partido, na assembleia da república, legisle em favor do povo…” Alto lá! Afinal o que é isto? Aqui não é um local onde impere o diálogo, isto é uma “fila indiana” de ideias pensadas e detidas por quem está na cabeça da fila e de lá ordena as suas directivas para o grupo, isto em relação ao “percurso” a ter. Bonito serviço…

            Foi a uma estante, rebuscou uns papeis e retirou um pequeno bloco. Folheou e leu:

            “ Defendem-se os valores tradicionais, a nação como referência e a cultura nacional…”

               Foi até ao computador, abriu-o, digitou algo no programa de busca… carregou no menu… 1942… “princípios organizativos”… “ fundamentos ideológicos…” abriu, leu:

São princípios: a defesa dos valores tradicionais, a nação como referência principal, a manutenção e desenvolvimento fundamental numa cultura nacional.”

            Isto era a ideologia hitleriana… estou perante uma cópia… até na confessada escrita, a vontade em destruírem o sistema, o bloco central (PS e PSD). No momento, não entram declaradamente em “guerra” com o PSD, porque este está no governo e é necessário para, paulatinamente aprovarem os “seus interesses”… mas verbalizam sistematicamente que o socialismo tem que desaparecer e para que isso aconteça, tem que se alterar a constituição… sim senhor, para que o socialismo democrático, igual à social- democracia… ou seja, quem fez evoluir o país até agora e que graças a esses dois partidos, o povo deixou de ser paupérrimo de bens materiais e cultura… deixem de existir e fique o que entendem para principio da sua entrada no governo… deixa-me ler outra vez o papel do estado: “Redução do estado nas suas funções, diz aqui… reduzir ao mínimo as funções do estado”… praticamente anular o papel do estado… não intervir no auxílio a minorias… reforço da ordem e da lei, acabando com ideias de manifestações de protesto “sem lógica”, porque tudo será tratado em benefício do povo e em tempo útil. Esta agora… estou mesmo no centro da perseguição ao direito das pessoas se manifestarem como o fazem num regime democrático. Isto, é só ler nas entrelinhas e ver os partidos de extrema direita a actuarem no terreno. Só um “cego” é que não lê e não interpreta… por não saber…

            O que faço… comparando… no essencial, isto não é mais que os SS… claro, não leio a ideia dos nazis, aqui declarada, é que a linguagem que aqui está escrita sobre as bases do partido, está mais consentânea com a actualidade, mais moderna. Bom, penso que vou pelo mesmo caminho de onde vim… A minha mania de não “fazer o trabalho de casa”, de não ler, ver, ouvir, reflectir e ser simplesmente um… nem consigo adjectivar-me… Não vou esquecer aquela “dica” do “meu correligionário, daqui”, a informar-me que o que devo estudar, aliás, até sublinhou: “Aqui estuda-se. É ouvires, leres as directivas do presidente, estudares os seus pensamentos sobre os assuntos e frisares, quando te solicitarem, com as tuas palavras é claro, com a tua vivência, o que ele quis e quer dizer, e só isso! Toma nota, para que não se saia do “foco” do que ele pretende. Tens de ouvir o que o presidente diz e disse sobre a corrupção, os corruptos, o compadrio entre, toma nota outra vez, sempre, quem interessa derrotar no parlamento. Aproveita a altura, sempre para destruir os referenciais do socialismo e da social democracia, mas no momento o socialismo, em voz bem “cheia”. Nas entrevistas, falar sempre sobre o que os outros estão a dizer para não lhes darmos hipótese de exporem ideias ou contrariarem as nossas. É ponto sagrado dele essa referência, repara que só em uníssono é que conseguimos ter uma voz mais actuante e deixar sem argumentos os outros. Como vês é importante a tua voz no partido. Nos outros nada se consegue e então naquele, onde estavas!”.

            Pensando bem, isto não é mais que um partido Bonapartista, e declaradamente! Isto não interessa a nenhum democrata. Como o sou, não enveredo por sistemas autocráticos, porque:

            - Penso; Intervenho; Consensualizo; Reorganizo; Actuo; Socializo.

            É nesta situação e nestes moldes, que está o “meu partido”, um partido democrático que pretendo sempre actual, interventivo e que deve servir toda a população, não alguns membros do partido. Já disse: Não posso aderir a um partido ou tomar parte das ideias de qualquer um deles, por preguiça, e estar pouco interessado em ajudar a sociedade onde vivo, tomar as ideias de outros, impostas, como minhas, nunca! O meu caminho, afinal, para ser socialmente útil, é o de volta.

Nas ilusões onde por vezes mergulhamos, o caminho de volta deve ser sempre rápido para não termos tempo de nos descobrirmos uns: “simplórios desavisados”.

 

            VM

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