quarta-feira, 27 de maio de 2026

 

ESCLARECIMENTO

            - Hoje é dia para conversarmos, se calhar do mesmo. Somos sete, eu só venho até cá, de dois em dois meses… mais ou menos, mas não tenho esclarecido o que aconteceu nas últimas eleições, calhando, défice de compreensão da minha parte. Nunca nos zangámos ao abordar este tema, claro, somos amigos e as amizades vão muito além das politicas, embora elas impliquem com a nossa forma de viver. Então, começo eu… ou algum dos presentes tem alguma declaração a fazer?

            - Estou em crer que afinal, o “alentejano” és tu. Onde é que não percebeste? Compreendes devagar apesar do que já dissemos por aqui, mas escuta, não te estiques muito, que estou com cãibras nos cabelos, mas vá lá, moenga aí o nosso juízo.

            - Eh, Luís. Que feitio…

            - Já o conheces, moço.

            Perante o sorrir dos demais, Cid Adão, responde:

            - Também é simples o que vou referir, perguntando…

            - Avanta o que remoeste…

            - Bom, estou a ver que está tudo de acordo com o Samuel. Então as perguntas são simples, cá vão, mas faço primeiro uma reflexão…

            - Anda moço, reflexiona lá para ouvirmos.

            - Ok. Então, o socialismo democrático…

            - Já cá faltava essa, moço dum “cab…”, tanta vez martelámos isto… bom admito que não percebas, não és alentejano, mas não é por isso só…

            - Samuel, calma. Só quero perceber uma coisa simples, a votação na extrema direita, seja, passar de uma esquerda para o outro extremo… Bem, o socialismo democrático tem por objectivo, falo na sua base é claro, agora não é bem assim, ou seja, tendia a anular os procedimentos capitalistas para se entrar por uma apropriação, em colectivo digamos, dos meios de produção, mas por via democrática, diálogos, votações, sem recorrer a processos revolucionários tradicionais, então, o tipo de socialismo que agora “vigora”, está mais consentâneo com a social-democracia onde se concorda com o sistema capitalista como meio de desenvolvimento social tentando sempre suprir desigualdades sociais ao redistribuir riqueza. O PS e o PSD sempre conviveram nesta nossa sociedade e foi quem levou isto em frente, umas vezes mais para o lado direito, outras vezes mais para o lado esquerdo, certo?

            - Não é que o moço está a dar no prego? – Ironiza António.

            - Até aqui sabemos. – Continua Cid Adão. Mas o que pretendo ver esclarecido na minha cabeça é que, sabendo as dificuldades que se passaram aqui no antigamente, muita fome, sem empregos, e só com uma revolução é que isto virou, para melhor. A fome foi travada, o Alentejo foi paulatinamente melhorado…

            - Aí é que tu tens o teu engano! Melhorado onde? Sem projectos, sem orçamentos capazes, com subsídios dados a quem não trabalha…

            - Espera aí Zé, espera aí! – Interrompe Cid Adão. Não me digas que querias que te dessem um sapo de louça para colocares na porta da rua…

            - Vês, não és alentejano. – Responde Zé. Continua: Não é por aí, olha, para te resumir a coisa, onde estão os “cabr…” dos políticos quando é necessário melhorar a vida das pessoas nas cidades e vilas do interior? Onde estão, quando é necessário tratar da água, por exemplo, para se beber? Onde estão, para facilitarem a vinda de empresas para este interior? Onde estão, para não permitirem o cultivo intensivo de espécies que não têm água para rega e a vão retirar às pessoas? Onde estão, se não para autorizarem o enterro de toneladas e toneladas de desperdícios da azeitona nos subsolos para contaminarem as poucas águas subterrâneas que existem e informam que ainda, por lei, há espaço para mais? Onde estão, quando é necessário repavimentar as estradas no Alentejo que se encontram cada vez mais miseráveis? Onde estão, quando queremos sinal na rede dos telemóveis em tantos e tantos quilómetros no Alentejo e até em todo o país, mas cá, a autoridade para as telecomunicações, serve para alguma coisa? Escuta, exemplo, se vens de Ourique e vais para Odmira… sentes que estás a ter qualquer anomalia na tua saúde, um AVC, ou o carro avaria, ou até tens um acidente. Experimenta telefonar a pedir socorro. Onde é que está o sinal no telemóvel? Ficas apeado ou morres a esperar por socorro. Olha, lembro-me, ias de Penacova para Coimbra e comecei a falar contigo, só uns dois ou três minutos e perdeste a rede. Porquê? Onde estão os políticos de escolinha, quando necessitamos de centros de saúde melhor equipados? E escolas melhoradas? E agências bancárias que não pensem só no lucro e nos façam andar dezenas de quilómetros para tratar de assuntos financeiros? E delegações das finanças? Onde estão os políticos de pacotilha, que cortam orçamentos para a saúde, para o ensino, para as autarquias e… agora sou venenoso, os dão ao Moedas, porque vale mais uma pedra da calçada na Praça da Figueira, do que o Alentejo todo, diz-me, onde está a dotação financeira para o desenvolvimento desta província? E os projectos que lhe deviam caber para o seu desenvolvimento, onde estão? É só secar o aeroporto de Beja? É à custa deste interior que vive todo o litoral? Até nem é esse dito todo, porque afinal, o que conta para o país, é só Lisboa e Porto! O país é pobre, é? É! Só em algumas regiões? Ou devem ser consideradas todas por igual? Porque é que Lisboa, por exemplo, não larga a região do vale do Tejo, a área de Setúbal? É que ao orçamento geral de Lisboa, interessa em conjunto com a região de Setúbal? É que a região de Setúbal, não interessa aos Setubalenses, é? E agora, ó alentejano de adopção, o que me dizes?

            - Cid Adão, queres que seja eu, agora, a falar do resto do país? Começando pelas tuas Beiras? – Atalha António.

            Cid Adão responde:

            - Já provaram estes pasteis de nata? Belíssimos. Sempre disse que aqui eram muito bons. Vocês já sabiam, é claro…

            Não sei se por agora, ainda se salva o pastel de nata…

 

VM

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