quinta-feira, 26 de março de 2026

 

 

VINÍCIUS 3

 

            Um dia, disseste que a Aurora se tinha acercado de ti, que a osculaste na sua boca orvalhada, mas que a boca “sabia a nada”… mesmo assim, apaixonaste-te por ela, continuando a buscá-la, sem veres manhã… sem veres tarde… estás cansado, dizes. Há dias, que até da vida dormes com a noite, ausentado da tua Aurora, esquecido… mas na ausência da Aurora pedes-lhe para mergulhar em ti como no mar, para que venha nadar em ti como no mar, para se afogar em ti… como no mar. Afinal é essa que é a mulher amada. A que semeia o vento, que colhe a tempestade, que determina meridianos, quem é misteriosa, portadora de si mesma? A mulher amada! Ela é o canto e a oferenda, o gozo e o privilégio, é isto mesmo, a mulher amada. Pois se assim o cantaste, eu o farei no meu cantinho, o de um simples trovista:

TARDE  DE VERÃO

 

Olho e vejo o sol a esbofetear-te o rosto,

mas de uma forma suave. Ficas endeusadamente dourada.

Descobri-te. Ah se redescobri!

Estás deitada de lado e posso ver que essa intimidade de renda

cobre, ao longo do teu corpo, só a sua metade.

A minha desesperada busca queda-se no teu rosto que viraste para a luz..,

Apoias a cabeça na mão. O sol marca-te as formas.

Sinto que alguma coisa se fecha no meu peito. Será ciúme dessa luz imensa

ou a demanda da minha angustia, agora que te achei?

Vejo a redoma de ar que te rodeia e sei que o espaço que entre nós

medeia, nos separa dos nossos tempos…

O modo enganoso do teu seio, que se deixa ver, está

em sintonia com a tua respiração.

Esse ar que a mim chega, fez-se aroma de ti e és pétalas de luz…

Nesse teu rosto, está gravada toda a história da vida.

O teu corpo rompe em flores de fertilidade.

A minha ressurreição será entre teus lábios

e a vida romperá mais tarde por entre eles,

e teus seios alimentarão os poemas de toda a fome do universo.

Estou perante a mulher amada que tudo oferece sem dar nada!

Estou perante uma aurora que de luz me desfaz em ruinas!

Estou perante um sentir vertigens de loucura nesta paixão!

Estou perante a minha nudez que ela consegue só com o sorriso.

Aproximo o meu sentir, de ti, da aurora, da imagem que apresentas, da luz

que te rodeia…

Revejo só mais um encantamento que tua imagem projecta sobre mim.

Começo a aproximar-me do ano, do mês… da hora, do minuto que és…

Olhas-me enigmaticamente e do alto dessa inútil renda, para mim, renovas

a majestade da tua beleza, do teu signo, da tua permanência

e abres os braços voltando a ser, na permissão do teu chamamento

 a insuperável amiga, nunca uma contrafacção da aurora!

 

            Transmiti ao teu espírito o que me surgiu em encontros de ternura conseguidos sem culpa, sem dano, sem mácula alguma. Também referes o mesmo na tua verve poética. Proximidade poética? Vivências? Tropicalidade? Talvez somente tudo…

 

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