VINÍCIUS 3
Um dia, disseste que a Aurora se tinha acercado de ti,
que a osculaste na sua boca orvalhada, mas que a boca “sabia a nada”… mesmo
assim, apaixonaste-te por ela, continuando a buscá-la, sem veres manhã… sem veres
tarde… estás cansado, dizes. Há dias, que até da vida dormes com a noite,
ausentado da tua Aurora, esquecido… mas na ausência da Aurora pedes-lhe para
mergulhar em ti como no mar, para que venha nadar em ti como no mar, para se
afogar em ti… como no mar. Afinal é essa que é a mulher amada. A que semeia o
vento, que colhe a tempestade, que determina meridianos, quem é misteriosa,
portadora de si mesma? A mulher amada! Ela é o canto e a oferenda, o gozo e o
privilégio, é isto mesmo, a mulher amada. Pois se assim o cantaste, eu o farei no meu cantinho, o de um simples trovista:
TARDE DE VERÃO
Olho
e vejo o sol a esbofetear-te o rosto,
mas
de uma forma suave. Ficas endeusadamente dourada.
Descobri-te.
Ah se redescobri!
Estás
deitada de lado e posso ver que essa intimidade de renda
cobre,
ao longo do teu corpo, só a sua metade.
A
minha desesperada busca queda-se no teu rosto que viraste para a luz..,
Apoias
a cabeça na mão. O sol marca-te as formas.
Sinto
que alguma coisa se fecha no meu peito. Será ciúme dessa luz imensa
ou
a demanda da minha angustia, agora que te achei?
Vejo
a redoma de ar que te rodeia e sei que o espaço que entre nós
medeia,
nos separa dos nossos tempos…
O
modo enganoso do teu seio, que se deixa ver, está
em
sintonia com a tua respiração.
Esse
ar que a mim chega, fez-se aroma de ti e és pétalas de luz…
Nesse
teu rosto, está gravada toda a história da vida.
O
teu corpo rompe em flores de fertilidade.
A
minha ressurreição será entre teus lábios
e
a vida romperá mais tarde por entre eles,
e
teus seios alimentarão os poemas de toda a fome do universo.
Estou
perante a mulher amada que tudo oferece sem dar nada!
Estou
perante uma aurora que de luz me desfaz em ruinas!
Estou
perante um sentir vertigens de loucura nesta paixão!
Estou
perante a minha nudez que ela consegue só com o sorriso.
Aproximo
o meu sentir, de ti, da aurora, da imagem que apresentas, da luz
que
te rodeia…
Revejo
só mais um encantamento que tua imagem projecta sobre mim.
Começo
a aproximar-me do ano, do mês… da hora, do minuto que és…
Olhas-me
enigmaticamente e do alto dessa inútil renda, para mim, renovas
a
majestade da tua beleza, do teu signo, da tua permanência
e
abres os braços voltando a ser, na permissão do teu chamamento
a insuperável amiga, nunca uma contrafacção da
aurora!
Transmiti ao teu espírito o que me
surgiu em encontros de ternura conseguidos sem culpa, sem dano, sem mácula
alguma. Também referes o mesmo na tua verve poética. Proximidade poética?
Vivências? Tropicalidade? Talvez somente tudo…
Sem comentários:
Enviar um comentário