sábado, 14 de março de 2026

 

CONTRIBUTO PARA UM EXORCISMO 

 

Este texto não é produzido por

nenhum sistema de IA. Foi elaborado

com base no humano pensamento,

 e conhecimentos do autor.

 

 

               Podíamos começar por Moçambique, Cabo Verde, Guiné… mas começamos por um território que conhecemos razoavelmente, em termos de história, etnias…

A marcação do território de Angola, começa em 1482 com Diogo Cão, que começa a juntar, num sítio próximo de São Paulo da Assunção (Luanda), alguns povos da beira mar. Por conhecimento “in loco”, os nativos foram noticiadores do que se passava com o pessoal “estranho” (brancos), que iam dando trabalho e víveres em troca da ajuda em edificações, para cimentar a sua presença naquelas paragens. Portugal começou a ter uma presença significativa em África, nas duas costas do continente africano. Em 1575, Paulo Dias de Novais delimitou, em Angola, uma vasta área, que no século XIX, princípios, e anos seguintes, deu lugar à marcação, ao domínio efectivo do terreno e também à colonização efectiva do território. Portugal tem o inventário exaustivo de todos os povos das suas colónias, suas localizações originais, proximidades e, ou, consanguinidades com outros povos, desde que assumiu a sua presença em África.

Do que existe em “inventário”, tomando como exemplo, em Angola, os Maiacas. Localizavam-se na sua grande maioria no Congo Belga e uma faixa, pequena em Angola, esta, situando-se ao longo da margem esquerda do rio Cuango. Este povo é o cruzamento de Congos e Lundas, os primeiros provindos de São Salvador do Congo e os Lundas do reino de Muata-Ianvo.  Desta dispersão, digamos, é que surge o “povo” Maiaca. Tudo isto está perfeitamente documentado, bem como de todas a ex-colónias.

Com processos idênticos, Moçambique, Guiné, São Tomé… também foram marcados todos os outros territórios. Ao tempo, o mundo queria que essas demarcações fossem feitas, como prova de pertença de quem as proclamasse, com provas cartográficas, e as registasse suas.

Ouvindo tanta… parvoíce, e depois de tantos anos passados (50) o que fazer, para este nosso simples caso? Um infinito luto? Receber, uma sobranceria e culpabilização incultas de quem ficou com territórios (países) a funcionar em pleno? E se alguns fantasmas nos atormentarem? Faremos o exorcismo deles! Lembrar continuadamente a história, não da pessoal, da de todos, dos de lá e dos de cá? Conversar resumida e informalmente, um pouco, sobre o assunto, está a valer a pena?

Muito bem, vamos então por aqui, pela última vez. Passarei a informar, o que todos da minha geração e poucos jovens sabem, e aos que não querem saber, que Portugal foi a primeira potência colonial europeia a entrar em África nos finais do século XV até meados dos anos 70 do último século, tal como a Espanha, foi dos últimos a sair. A razão de tal longevidade em África deveu-se, é credível por isso consensual, há neutral posição que Portugal manteve durante a II guerra mundial. Portugal sempre manteve uma crença, a da sua missão civilizadora, e como tal, a necessidade de manter essa vocação histórica. O facto é que as colónias contribuíam com significado, dado o nosso investimento para que assim fosse, para a economia global portuguesa, por muito que se fizesse, politicamente, crer que não. Na investigação por nós feita, conseguimos dados sobre esse retorno do investimento, mas quando quisemos levar a investigação há exaustão… não conseguimos documentos essenciais. Conseguimos uma fonte que adiantou pouco mais do que o que tínhamos investigado, no caso das contas publicas até Abril de 1974. Assim só podemos dizer o que “sempre” se dizia pelo “puto”: “A metrópole” é que paga tudo… Pensemos: Com a força do trabalho, produção, que a metrópole vendia a nível mundial e que investia nas províncias ultramarinas… em desfavor do povo metropolitano... Sendo o contrário o óbvio, este, era sonegado ao povo.

Entremos, já nos anos 50 do século passado, para que a história tenha consistência no que se quer informar, não se fundamentava, nem historicamente ou verificada no terreno, a presença de Portugal na África, na discriminação racial, mas sim na assimilação dos naturais de África. Entretanto a legislação muda e oficialmente em 1951, as colónias voltam a ser províncias do país, até com representantes na Assembleia Nacional em Lisboa. Mas a política económica e social portuguesa, nas parcelas de África, permanecia bastante ambígua, como sempre somos capazes de fazer acontecer...

Em Angola, nos anos cinquenta do século passado, a quantidade de trabalhadores contratados foi significativamente aumentada. Isto é histórico! Qual o objectivo? O de aumentar as exportações do café e de algodão fundamentalmente. A assimilação dos povos das províncias ultramarinas, entretanto, ficou muito aquém das intenções.

Recuemos à Constituição de 1933. Nela está expresso a necessidade tal como o objectivo, de se continuar com a assimilação. O que aconteceu paulatinamente foi a divisão da população. Naturais e não naturais. Os não naturais, que ficavam sujeitos às leis portuguesas, eram: os brancos, os mestiços e os assimilados, ou seja, a pequena franja burguesa dos naturais residentes nas províncias. Todos estes tinham direito a voto. E os “naturais”? Como se os brancos, mestiços… nascidos nas províncias não fossem naturais. Um pensamento (estrutural) na época, racista.

Em 1965 eram ainda poucos os assimilados com estatuto, sendo assim, não é surpresa nenhuma ver que os chefes dos grupos nacionalistas se contavam entre os mestiços e assimilados. O tribalismo acabou por ser um factor decisivo para a formação dos grupos nacionalistas. Na Guiné, o PAIGC que foi fundado em 1956, era composto por assimilados urbanos da cidade de Bissau, e membros do povo. O povo Balanta. Eram mais ou menos vinte por cento da população. Os Mandingas e os Fulas eram leais a Portugal, podemos dizer que entendiam a evolução como necessária dado que nenhuma repressão era visível no terreno...

Em Moçambique formou-se uma coligação com vários grupos com predominância da etnia Maconde, mais ou menos dois por cento da população.

Em Angola as formações dos grupos de libertação eram heterogéneas. O MPLA fundado em 1956 em Luanda. Continha no seu seio os assimilados urbanos da capital e nos arredores da cidade, os de etnia Mbundu. A FNLA surge das reivindicações do povo rural Bacongo no norte do país. Era dirigido por Holden Roberto, sobrinho do herdeiro do reino, que Portugal fez substituir por outro indivíduo. Os tais erros históricos, fundamentados na troca, como forma de enfraquecer os legítimos herdeiros e colocar do lado de cá (Portugal) os outros que nunca tiveram nada.

A etnia Ovimbundu no sul, e a etnia Chokwe no leste, apoiavam também este movimento de libertação. Mas a UNITA consegue trazer para as suas fileiras a etnia Chokwe. É fundado o movimento em 1966, por Jonas Malheiro Savimbi que por razões pessoais e políticas, se desliga do movimento de Holden Roberto.

Em Agosto de 1959, as autoridades portuguesas na Guiné, na pessoa de cipaios, mataram cerca de 50 indivíduos, justificada atitude, diziam os dirigentes da altura, por terem feito greve nas docas de Bissau?... Claro que esta tinha sido feita propositadamente, a contestar a presença colonialista. Ideias já em circulação, sobre os movimentos para as libertações dos povos colonizados. Agora, em Angola, após uma série de ataques dos movimentos de libertação, estes aqui, começaram com uma mortandade no norte de Angola de forma bárbara, as autoridades portuguesas tomam atitudes semelhantes às da mortandade na Guiné. Isto no dia 15 de Março de 1961.

Tratou-se de uma revolta na região do Uíje, numas roças de café. O seu inicio foi de tal ordem que os movimentos de libertação mataram cerca de 8000 pessoas, entre brancos das fazendas e indígenas leais. Esta atitude foi algo surpreendente para os portugueses, dados sempre, e eternamente, a não planearem o futuro. Sem preverem nada, e sem quererem intervir da mesma forma, logo, sem saber o que fazer, deixaram “correr o marfim”. Desde o Brasil que isto se prova e agora continua dentro do território. Sempre que constatamos, “pequenos passos”, dados no florescimento da economia nacional, esses “milagres” são sempre acompanhados por bombos e charangas a assinalar esses pequeninos avanços. Nunca multiplicar esses avanços. Bom, mas naquela altura do massacre nas fazendas de café, segundo dados que estão à nossa disposição, Portugal só tinha 3000 efectivos militares em toda a Angola, no Norte praticamente ninguém, simplesmente abandonado. Começado o massacre por lá, porquê?

Foram dadas concessões por parte do governo central, imediatas, para, suster esta onda de revolta libertacionista, sustentada na pretensão: “A abolição do cultivo obrigatório de colheita, para exportação”. Verdade se diga que tal “cultivo obrigatório” não era sentido como obrigatório por parte dos grandes produtores, só como um imperativo para aumentar a sua qualidade de vida e com isso desenvolver a terra, isto porque para o branco local, a metrópole não era efectivamente aquela mãe pátria que devia ser sempre venerada, não! Era considerada por quase todos, como madrasta no sentido negativo do termo, logo, essa ordem de cultivo obrigatório só poderia ter sido um complemento de personalidade para que, um qualquer dirigente no “puto”, se tenha sentido, nesse momento, dono de um império, ao legislar tão “profundamente”! Esta sim é que era a verdade no terreno. Temos sempre este tipo de genialidade.

Os habitantes das províncias, salvo alguns “afilhados do governo”, principalmente em Angola, “estavam-se nas tintas” para o que se pensava na Metrópole. Mas, o certo é que aconteceu uma maior autonomia das províncias e acabou-se com a assimilação. Qualquer cidadão africano era igual a qualquer europeu. Mas estas concessões “escritas” vieram tarde de mais, como sempre, até porque os movimentos de libertação por toda a África, estavam a dar os seus frutos e não seria na África Portuguesa que se iria parar, ou retardar esse movimento de libertação global!

Em 1964 a FRELIMO começa a sua guerrilha em Moçambique com o total apoio da Tanzânia. Em 1971 a FRELIMO contava, dados da altura, com cerca de 7000 guerrilheiros mas não conseguia penetrar mais além que Cabo Delgado e Niassa.

Só em 1968 é que começou a infiltrar-se em Tete, a partir da Zâmbia, com esta sempre a dar apoio, como forma de fazer perigar a barragem de Cabora Bassa, mas nunca conseguiu interromper os trabalhos da barragem de maneira eficaz. Em Junho de 1975, Moçambique torna-se independente.

Em Setembro de 1974, foi a vez da Guiné.

Em 11 de Novembro de 1975 Angola atinge o dia da independência, mas a existência de movimentos rivais não permite que a paz dure muito tempo.

Em Outubro de 1975, a FNLA e a UNITA, com o auxílio da África do Sul, esta desprotegida agora ao longo da sua fronteira, pelo abandono de Angola por parte de Portugal, avança sobre Luanda, a partir do Sul, enquanto a FNLA penetra pela região Norte.

No dia 7 de Novembro, a pedido do governo de Luanda, ou instada a isso, a Rússia por intermédio de Cuba, envia tropas, “naturalmente” cubanas, para Angola. Parte destas, numa força aerotransportada, confluem juntamente com as tropas do MPLA sobre a FNLA e destroem este contingente.

Resumindo, estes movimentos não teriam sido possíveis sem o apoio dos países vizinhos, Zaire, por exemplo, em Angola. A FRELIMO beneficiou porque os Macondes vivem dos dois lados, de Moçambique e Tanzânia.

Na Guiné o PAIGC, operava a partir do Senegal e da república da Guiné. Algumas incursões do movimento, sobre a Guiné Portuguesa, tiveram o apoio da artilharia Senegalesa. O Zaire era o refúgio da FNLA porque o seu presidente na altura, Mobutu, era cunhado de Holden Roberto e enquanto foi presidente, deu sempre todo o apoio a esse movimento.

Em Angola as forças portuguesas, perto de 1970, eram um número que atingia, quase os 60 000 efectivos, mas as patrulhas terrestres eram, agora, na proporção de dois ou três portugueses para 20 ou 30 africanos.

A metrópole começava a agitar-se seriamente contra a ida de soldados para as Áfricas, milicianos é claro, e não era possível, “teoricamente”, sustentar um património com aquelas dimensões, apesar de a concessionária dos petróleos em Cabinda, pagar de renda praticamente a guerra toda anualmente, a somar com a “renda” dos diamantes, ferro, etc. Tudo isto era uma “forma” de ouro para a metrópole que não tinha “negócios” com a Europa porque esta lhe virou as costas, fazia muitos anos. Mas a informação dada aos portugueses continentais não era de molde a dar a entender que a fonte de riqueza era Angola, em grande parte, trabalho de colonos. Aumentava nas províncias uma guerra surda da população, apesar dos portugueses possuírem uma forma de ser e de estar, diferente de qualquer outro povo no mundo, que tivesse tido colónias. Essa guerra velada, apoiada também nos princípios libertacionistas, pressionou também ao golpe militar de 25 de Abril.

Na Guiné verificou-se que os militares profissionais portugueses eram confrontados com o crescente desinteresse em se manterem no território por parte dos soldados. Muitos dos subalternos, no exército profissional Português, eram contrários à guerra, uns por convicção, outros porque não queriam estar no seio dela.

Portugal cometeu erros históricos na presença em África, com objectivos mal traçados. Caiu de maduro o império. É lógico o governo do país ter caído em vinte e cinco de Abril de setenta e quatro. Ninguém “roubou” ninguém. Ninguém, na altura da nossa chegada por essas paragens, estava num restaurante, ou numa esplanada a comer ou beber. Portugal deixou países, modernos, a funcionar! Morreram muitos seres, morreram muitos sonhos, mas renasceram povos! Infelizmente, alguns ainda se encontram em cuidados continuados…


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